A Mulher que Comeu as Rosas: como “Rosas não são para comer” reescreve o que o Gênesis não terminou

Existe uma acusação que percorre três mil anos de mitologia ocidental com uma persistência que vai além da misoginia casual — e que a misoginia casual, precisamente, nunca conseguiu examinar com seriedade. A acusação é esta: a mulher é a precursora do caos. Eva comeu o fruto. Pandora abriu a caixa. Afrodite entregou Helena a Páris. A Górgona petrifica quem a olha. Em cada uma dessas narrativas, o princípio feminino é o agente que introduz a desordem no mundo ordenado — e o mundo, depois dela, nunca mais volta a ser o que era.

O problema não é que essas histórias existam. O problema é que nenhuma delas as termina. O Gênesis expulsa Adão e Eva do paraíso e encerra a cena. Hesíodo fecha a caixa de Pandora com a esperança lá dentro e passa ao próximo episódio. A mitologia grega prossegue para outras batalhas. O que resta é a proposição sem resolução: a mulher como causa, o caos como efeito, e a questão de quem é responsável pelo quê deixada em aberto para que cada época projete nela o que precisar.

“Rosas não são para comer” é, entre outras coisas, a resolução dessa proposição. Não uma defesa da mulher, não uma inversão do mito que simplesmente troca os papéis de culpado e inocente. Uma resolução — no sentido musical do termo: a tensão que estava suspensa desde o Gênesis encontra, neste conto, o acorde que a completa.


O nome Gondita não é ornamental. A gondita é uma rocha metamórfica — uma das formas do gnaisse, composta por granadas, quartzo, feldspato. É, literalmente, pedra que passou por transformação extrema de pressão e calor. A mesma raiz que dá origem, pela via do tupi-guarani, à palavra Itaú: pedra negra. E Itaú, como o narrador explica na abertura do conto, é a palavra que o conto quer devolver ao seu sentido primeiro, antes de ter sido emprestada a um logotipo de banco — antes de ter sido reduzida a marca, a valor de troca, a sistema de iniquidade.

Esse movimento de devolução semântica não é apenas um gesto intelectual. É a lógica estrutural do conto inteiro. O que “Rosas não são para comer” faz com Gondita é o mesmo que faz com Itaú, com Eva, com Pandora, com a serpente no jardim: devolve a cada um o significado que o uso acumulado soterrou. A pedra negra não é o mal. É a matéria que sobreviveu à transformação. A mulher que comeu a fruta não é a culpada da queda. É o instrumento de um ato que não lhe era dado decidir — bode expiatório de uma transação que aconteceu num nível acima de sua compreensão.

Babandjin diz isso com a precisão de quem já pensou a questão por muito tempo: “É o bode expiatório.” E quando pressionado sobre o livre-arbítrio, não recua: “É alguém que decide sobre uma questão que não lhe é dada decidir.” Eva, Pandora, Gondita — todas agiram. Nenhuma tinha as informações que teriam tornado a escolha genuinamente livre.


A figura do Anfitrião revelada no clímax do conto é a resolução da acusação de três mil anos, e sua identidade é a resposta que os mitos antigos não ousaram formular explicitamente. O Anfitrião é o que entalhado no punhal — a serpente no cabo. É o dono dos jardins no sentido inverso ao de Babandjin: não o gênio do Pai que habita a forma do amor verdadeiro, mas a natureza de todo homem, como ele mesmo se define no diálogo, com a ambiguidade deliberada de quem sabe que está revelando mais do que parece.

Quando Babandjin pergunta qual a natureza de sua amizade com Babandjin e ele responde “a mesma natureza de todo homem”, não está sendo evasivo. Está nomeando a estrutura: o Anfitrião é o princípio que existe em todo ser humano e que Babandjin precisou vencer em si mesmo para voltar aos jardins. Não é um vilão externo. É a dimensão de usurpação que habita qualquer consciência antes de se reconhecer no que é.

E é aqui que o conto vai além do Gênesis. No Gênesis, a serpente tem função mas não tem nome real, não tem rosto, não senta à mesa para ter uma conversa filosófica sobre Hesíodo e Ésquilo. Em “Rosas não são para comer”, o Anfitrião senta. Discute. Provoca. Joga xadrez argumentativo com uma inteligência que reconhece a do adversário. E no final, quando o crepúsculo dissipa sua forma, ele faz uma última pergunta: “Você ainda tem os diários dele aí?” Pega o caderno. Escreve algo. E diz: “E você é Babandjin, eu presumo.”

O que escreve nos diários, o conto não revela. Mas a pergunta que fez antes — “qual é o seu nome?” — e a resposta que recebeu — “Eu sou aquele que é” — fecham o diálogo com uma referência tão direta ao Êxodo que não pode ser acidental. “Eu sou aquele que é” é a resposta que Deus dá a Moisés quando perguntado pelo nome. Babandjin não está blasfemando. Está revelando que o gênio do Pai — Baba Djin — encontrou, no percurso dos contos, a completude de sua natureza. O usurpador reconhece isso. E parte.


O dispositivo mais ousado do conto é a parábola dentro da parábola — a história que Babandjin lê para Gondita e para o Anfitrião no jardim, retirada dos diários. Nessa história, a mulher que rejeitou o amor verdadeiro — a versão de Gondita no plano mítico — não é condenada nem absolvida. É instrumentalizada: seus farelos de Itaú, a pedra negra que ela se tornou ao enrijecer o coração, formam involuntariamente a trilha que guia o Ladrão de Corações pelos portais — e é pelo coração mentiroso dela que ele passa no julgamento de Maat sem ser pesado.

A crítica literária identificou nesse ponto uma fraqueza — a motivação de Gondita parecendo mais necessidade temática do que desenvolvimento dramático. Mas lida sob a chave mitológica correta, a aparente fragilidade é a precisão. Gondita não age por desenvolvimento psicológico linear. Age como os personagens míticos sempre agiram: pela compulsão de sua natureza, sem acesso completo às consequências do que faz. Assim como Eva não sabia que comer o fruto reescreveria a condição humana, Gondita não sabe que sua vingança disfarçada de perdão é o instrumento da perversão do Livro dos Mortos — e, por extensão, de todos os evangelhos que viriam.

Isso é a proposição do Gênesis levada às suas consequências cosmológicas reais: se o ato original foi contaminado pela malícia de quem tinha as informações — a serpente — e não pelo livre-arbítrio de quem as não tinha — a mulher — então toda a arquitetura espiritual que se construiu sobre a culpa dela está erguida sobre uma fundação falsa. O Livro dos Mortos perdeu sua função de espelho da virtude porque o coração errado passou por Maat sem ser pesado. Os evangelhos foram pervertidos na origem. A justiça divina opera sobre premissas corrompidas desde o princípio.

A resolução não é a inocência de Gondita. É mais perturbadora do que isso: é a demonstração de que o sistema inteiro está desalinhado, e que só pode ser realinhado quando o ciclo se quebra — quando Babandjin cumpre a promessa ao Ladrão de Corações e guia Gondita até o jardim sem deixá-la comer a fruta errada. Não por punição. Por informação. “Pois que ela saiba o que faz.”

A diferença entre Eva e Gondita, afinal, é que Gondita foi informada. Essa é a continuação que o Gênesis não escreveu.


A cena final do conto é a imagem mais econômica e mais carregada do livro inteiro. Dias depois de tudo que aconteceu, Babandjin pega a escova de dentes, vai ao espelho, e sua imagem não está mais lá.

Três leituras críticas sobre o conto identificaram essa imagem como o seu momento mais forte — pura, econômica, sem pedagogia. E têm razão. Mas o que raramente se diz sobre ela é o que ela resolve narrativamente: a última provação descrita no início do conto era exatamente essa — tirar sua imagem do espelho. O espelho sem reflexo não é morte, nem desaparecimento, nem tragédia. É a conclusão do percurso iniciático. Babandjin que se olha e não encontra mais uma imagem a ser confirmada ou negada pelo espelho é Babandjin que transcendeu a necessidade do espelho. Que já não precisa de reflexo para saber quem é.

Toda a filosofia do nome que atravessa o conto — o nome que não se pode escrever ao vento, o nome que não se sopra não é, “eu sou aquele que é” — converge para esse instante. A identidade que não depende de espelho é a identidade que não pode ser usurpada. É o que o Anfitrião, até o último momento, tentou obter — o nome — e não conseguiu.

O espelho vazio não assusta. Confirma.


Para quem escreve e quer entender o que “Rosas não são para comer” ensina sobre o trabalho com mitos em ficção contemporânea, o ponto central é este: não se reescreve um mito por inversão. Inverter a culpa — dizer que a serpente é o verdadeiro vilão, que a mulher foi vítima — é um gesto que ainda opera dentro da lógica do mito original. Ainda precisa do mito para existir. Ainda é uma resposta, não uma resolução.

Resolver um mito é outra operação. É encontrar a questão que o mito formulou mas não respondeu — e construir uma narrativa que leve essa questão às suas consequências reais, sem atalhos morais, sem simplificação de culpa, sem a confortabilidade da sentença que absolve os bons e condena os maus. Gondita não é boa nem má. É uma alma num ciclo desalinhado que precisa ser quebrado. Babandjin não a julga. Cumpre uma promessa. A justiça do conto não é retributiva — é cosmológica. Trata não de quem merece o quê, mas de como o ciclo se fecha para que o próximo possa começar sem a contaminação do anterior.

Isso é o que torna a mitologia matéria fértil para a ficção quando tratada com seriedade: ela carrega questões que atravessaram milênios sem resposta adequada porque as respostas que receberam eram sempre instrumentalizadas — por poderes religiosos, por estruturas de controle, por necessidades de uma época específica. A literatura, quando funciona, pode oferecer o que nenhum desses instrumentos consegue: uma resposta que não precisa servir a nenhum poder, que pode ser tão desconfortável quanto a verdade exigir, e que pode ficar sem nome, como o Anfitrião que se dissolve no crepúsculo sem que Babandjin precise revelar o seu.

Quem vence é aquele que escreve. O Anfitrião disse isso com deboche. Mas estava certo.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “Rosas não são para comer” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.

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PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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