
Existe uma cena na tradição evangélica que os pregadores raramente citam com sua profundidade completa — a dos porcos de Gerasa, para onde Jesus envia os demônios expulsos do endemoninhado. Os porcos correm para o precipício e se afogam. A imagem sempre foi tratada como milagre de exorcismo. Mas a sabedoria judaico-cristã mais antiga leu ali outra coisa: o porco como animal que divide o casco mas não rumina — que tem a aparência exterior do puro mas não realiza o processo interior que a pureza exige. O porco é a imagem do ser que parece mas não é. Que mostra a forma sem ter a substância.
“Atrás do muro” é o conto que convoca essa tradição e a demonstra em ato — num almoço de Páscoa num hostel entre o mar e a montanha, com uma mesa farta de aperitivos, um tabuleiro de xadrez, e três personagens que chegaram convictos de suas próprias virtudes e saíram tendo sido nomeados pelo que realmente eram.
O Anfitrião os reuniu com um pretexto preciso: um sonho enigmático que precisava ser decifrado. Dois porcos subindo uma ladeira onde a mãe o aguardava. O primeiro falava palavras ouvidas mas não compreendidas. O segundo subia em silêncio. Depois o próprio Anfitrião subia e mostrava à mãe um furúnculo purulento na virilha — aparentemente pequeno, mas muito pior por dentro.
O sonho é uma armadilha de diagnóstico — e cada personagem, ao interpretá-lo, revela exatamente o que o sonho descrevia. O ambientalista famoso que acendia cigarros enquanto pensava em jogadas de xadrez relacionou o sonho aos efeitos da carne no organismo e à labuta — sem nenhum significado metafísico, apenas estilo de vida. Anfitrião mandou servi-lo imediatamente com saladas, grãos, sementes e raízes, que ele passou a comer com grande apetite, satisfeito com sua própria leitura.
A mulher com o livro de Hemingway abriu o coração sobre arquétipos e a mãe do Anfitrião — estava tão certa de seu diagnóstico psicológico que, quando lhe serviram um leitão em tenra idade enrolado em si mesmo, no formato de um feto com uma maçã na boca, teve uma reação que dispensou qualquer análise adicional: proferiu palavras sem sentido, retirou-se da mesa ofendida e dispensou a refeição.
O pastor relatou fatos bíblicos sobre porcos sem estar convicto dos próprios significados — e quando não decifrou o sonho, em vez de admitir a derrota, passou a dirigir questionamentos bíblicos ao narrador até que Anfitrião o interrompeu: “Ele estuda os escritos de Babandjin.” O pastor entendeu que se tratava de um herege. E suas palavras tomaram o tom de apostasia disfarçada de doutrina.
Os dois porcos da tradição judaico-cristã não são apenas animais impuros. São a imagem das duas faces da hipocrisia — e o conto as encarna com uma precisão que nenhuma alegoria abstrata alcançaria.
O primeiro porco fala — palavras ouvidas mas não compreendidas. É o ambientalista que proclama a preservação da natureza enquanto acende mais um cigarro, que defende o meio ambiente de dentro de um belíssimo carro, que raciocina sobre estilo de vida enquanto come tudo que lhe servem sem questionar. A hipocrisia aparente, falante, mas desalinhada com suas ações. A placa do condomínio ecológico instalada sobre o muro construído com motosserras enquanto micos aguardam uma cova rasa na faixa de areia.
O segundo porco sobe em silêncio — e é a mulher com seu feminismo velado em ações, que atua de forma calada determinando perspectivas, mas que quando confrontada com a essência de suas próprias convicções as enxerga com olhos de negação. O espelho não a serve porque sua autoimagem é outra — então o quebra e foge. A hipocrisia que não se anuncia, que opera pela convicção silenciosa, e que desmorona completamente no momento em que o espelho é apresentado com uma precisão que não deixa saída.
O leitão no formato de feto com uma maçã na boca é o espelho mais cruel do conto — e o mais exato. Para quem defende o direito à vida como princípio, o que fazer com a imagem de uma vida interrompida antes de começar, servida como refeição? A reação da mulher não foi filosófica. Foi visceral, inarticulada, uma sequência de palavras sem sentido antes da fuga. Porque não havia argumento disponível — apenas a revelação do ponto onde a convicção encontra seu próprio limite e recusa olhar.
A ferida purulenta é a terceira face — e a mais perigosa das três. Aparente, fácil de tratar, pequena na superfície. Mas por dentro, um câncer de difícil reparação, tão incrustado na carne que se irradia para além dela, debilitando alma e espírito e todos que rodeiam o portador.
O pastor que cita Bíblia sem estar convicto dos próprios significados é o retrato mais preciso da hipocrisia religiosa institucionalizada — não a má-fé declarada, mas algo mais corrosivo: a doutrina que perdeu contato com a experiência que a originou, que circula como forma sem substância, que reconhece a letra sem habitar o espírito. Quando o narrador responde com a frase mais simples e mais direta do Evangelho — “somente através do Filho se chega ao Pai” — o silêncio repentino do pastor é mais revelador do que qualquer resposta que pudesse dar. Porque a frase não é um argumento teológico. É a pergunta que a doutrina sem substância nunca consegue responder: você realmente acredita no que diz?
O silêncio chegou antes do pernil de cordeiro assado. A sequência não é acidental — o cordeiro que veio depois do silêncio do pastor é o símbolo cristão mais antigo, e sua chegada como refeição do narrador é a confirmação de que a decifração estava correta.
O conto resolve o enigma do sonho com uma frase que é simultaneamente diagnóstico teológico, análise psicológica e declaração de fé: “Somente através do Filho se chega ao Pai.” Não como doutrina imposta — como resposta ao teste de ascensão que o Anfitrião havia preparado desde o início.
Porque “Atrás do muro” é, em sua estrutura profunda, um conto de iniciação — o último teste antes do ingresso definitivo nos jardins. O muro que o narrador havia aprendido a habitar nos diários de Babandjin — postando-se entre os arbustos onde o inimigo não podia ver, avaliando o mal antes de decidir o próximo passo — é o mesmo muro que Érica atravessou quando alinhou em si os três corpos e compreendeu o segredo da magia dos olhos de Babandjin.
O ser livre das desmedidas denominadas hipocrisia. É a definição que o conto oferece para o que Érica alcançou — e o que os três convivas do almoço de Páscoa não alcançaram, cada um preso na sua própria forma de porco: o que fala sem agir, o que age sem admitir, o que doutrina sem crer.
O narrador bebeu água da fonte. Não porque venceu um debate. Porque reconheceu no enigma do sonho o mesmo mecanismo que os diários de Babandjin haviam descrito — e nomeou o que viu sem hesitar, sem diplomatizar, sem suavizar para não ofender.
A verdade está no movimento. E o bem e o mal estão no observador — ao qual não é dada a decisão sobre a verdade posta. Quem decide a verdade não é quem a observa. É a verdade que se revela a si mesma quando posta em movimento. O almoço de Páscoa foi o movimento. Os três convivas foram o espelho. E o espelho mostrou o que sempre esteve lá — antes mesmo de qualquer refeição ser servida.
Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “Atrás do muro” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.