Au-ki-mia: a cadela que mia e o que a transmutação revela sobre a natureza que não se muda

Existe uma tradição antiga no pensamento hermético que diz que o verdadeiro ouro não é fabricado — é revelado. O alquimista não cria a substância nobre a partir do chumbo. Remove o que a encobre. A transmutação não é uma adição, mas uma subtração: camada por camada, o que era opaco vai cedendo até que o que sempre esteve lá apareça. O processo não muda a natureza do metal. Descobre o que a natureza do metal sempre foi.

“Aukimia” — o título que soa como alquimia mas se escreve como uma onomatopeia infantil — já contém, antes do primeiro parágrafo, toda a arquitetura do que o conto vai fazer. Au: o latido do cachorro na linguagem das crianças. Ki: “que”, na fala popular. Mia: o som que o gato faz. A cadela que mia. E ao mesmo tempo, invisivelmente: Au da tabela periódica, o ouro. O processo que revela o que sempre esteve lá.

O título é ele mesmo a alquimia que descreve — transforma uma onomatopeia infantil numa palavra filosófica milenar, faz o baixo e o alto coincidirem num único som, e entrega o final do conto antes que o conto comece.


Lili era uma cadela de trabalho. Latido curto e seco para quem chegava com mala de rodinhas, demonstrando disciplina e gentileza. Latido seguido de leve uivar para os mochileiros. Feroz em rosnados para os cães de rua. Jamais aceitava comida de estranhos — o Anfitrião a havia acostumado assim. Fazia um trabalho melhor que qualquer porteiro da região. Era paga com uma medida de ração diária.

Essa é a Lili da superfície — o ser que funciona com perfeição dentro do papel que lhe foi dado. Disciplinada, confiável, útil, contida. O Anfitrião a havia formado bem. E ela havia aceitado a formação com a seriedade de quem entende que a utilidade é uma forma de dignidade.

Mas nos diários de Babandjin, que o narrador cruza com o que observa no hostel, Lili tem outra dimensão. Resgatada da mendicância junto ao Bar da Cida — onde pedreiros trocavam mensagens cifradas sobre as potestades de seus templos em encontros fraternais secretos a céu aberto — ela foi alimentada com polpa de abricó e deixada a guardar os jardins. O Anfitrião a reconhecia como parte da morada. Ela o reconhecia na posição que ele exercia. Havia entre eles mútua consideração.

E havia Sombra — a gata mais antiga dos jardins, presente desde a fundação do hostel, chegada à hora de se aposentar.


Hermes chegou montado em seu cavalo com a bagagem necessária para um viajante. O nome não é aleatório — Hermes Trismegisto, o três vezes grande, o pai da tradição hermética e alquímica, o mensageiro que transita entre mundos, o que conhece os segredos da transmutação. Babandjin o observa do topo do abricó. Lili anuncia sua chegada no portão. Sombra reconhece: “é ele.”

O que Hermes faz é o que sempre fez na tradição que seu nome carrega: testa. Não com violência, não com ameaça declarada — com a oferta. Sobe sorrateiro à árvore, colhe quatro tangerinas, oferece uma a Lili com o argumento mais antigo que existe: este fruto é melhor que o que você tem, mais doce que o preparado de Babandjin, mais fresco, mais livre.

E quando Lili permanece inerte como esfinge, Hermes muda de estratégia e usa o argumento que é a continuação direta do que a serpente disse a Eva no jardim: “ele teve pena de você, te mantém cativa na guarda dos jardins, enquanto era você quem deveria dar as ordens. Pense grande e seja grande.”

A mesma estrutura. O mesmo mecanismo. A oferta do fruto mais a sugestão de que a obediência é escravidão e a desobediência é grandeza. Hermes deixa a tangerina à frente de Lili e desaparece na escuridão da noite.


O que acontece a seguir é o ponto mais preciso e mais perturbador do conto. Lili não come a tangerina. Permanece imóvel diante dela. E então Sombra aparece — a gata mais antiga dos jardins, a que estava lá desde o início, a que reconheceu Hermes antes de qualquer outro — senta-se à frente de Lili, pega a fruta e come gomo por gomo.

Quando chega ao último gomo, atira-o a Lili, que o arrebata em pleno ar e o engole.

Sombra comeu o fruto. E deu o último pedaço à cadela.

Aqui está a continuação da história que “Rosas não são para comer” havia formulado cosmologicamente: as consequências de certas escolhas não ficam contidas em quem as faz. Contaminam o que está ao redor. O último gomo que passa de Sombra para Lili é o mesmo mecanismo pelo qual a escolha de Gondita perverteu o Livro dos Mortos — o que foi feito numa instância desce e se distribui pelas que seguem, sem que as que recebem tenham necessariamente escolhido.

Sombra estava pronta para se aposentar. Sabia que era chegada a sua hora. E no ato final antes de partir, comeu o fruto que Hermes havia deixado e passou o último gomo à cadela que guardava os jardins.

Por quê? O conto não explica. Como todo espelho do livro, devolve a pergunta sem a resposta. Mas a consequência é imediata e irreversível.


No dia seguinte, Lili está deitada no sofá da sala de televisão. A televisão passa uma reportagem sobre a maior serpente jamais encontrada. Divinéia — a músico country que havia tentado alimentá-la na véspera, que havia falado com ela em linguagem infantilizada — senta-se ao lado e recomeça o diálogo fútil.

E Lili responde miando como gata.

Esse final tem a contenção das grandes imagens do livro — sem explicação, sem sublinhado, sem o narrador dizendo o que significa. Apenas o fato, colocado com a precisão de quem sabe que o fato já é suficiente.

A cadela mia. A transmutação se completou. Não a transmutação que a alquimia promete — a que eleva o chumbo a ouro, a que purifica e ennoblece. A transmutação inversa: a que revela que por baixo da disciplina treinada, da utilidade reconhecida, da guarda fiel dos jardins, havia uma natureza que o último gomo de Sombra simplesmente deixou emergir.

Lili não se tornou gata. Revelou que havia algo de gato nela que a formação de Babandjin havia contido — e que a cadeia Sombra-Hermes-tangerina foi suficiente para soltar.


A bergamoteira que Sombra impediu Babandjin de escalar quando ainda não estava pronto — “todos que coletaram os frutos dessa árvore sem estarem prontos pereceram em dor e sofrimento, e seus filhos lutaram como cães e gatos” — é a mesma árvore do conhecimento em nova forma. E a frase de Sombra que explica por que os frutos apodrecem no pé quando ninguém os colhe na hora certa — “a semente que há dentro do fruto podre alimentar-se-á da vida de quem o tomou” — é a lei que o conto demonstra em ato.

Hermes colheu as tangerinas sem estar autorizado. Sombra comeu o que Hermes colheu. Lili recebeu o último gomo de Sombra. A semente do fruto tomado fora da hora alimentou-se da vida de Lili e produziu o que produziu: a cadela que mia.

Não é punição. É consequência. A distinção que Sombra já havia ensinado a Babandjin: “a maldição do castigo de Deus é um mito. É uma perspectiva de quem não estava pronto para comer dessa árvore.” Não há um Deus que pune. Há uma lei que opera: o fruto tomado fora do tempo e da autoridade carrega dentro de si a semente da própria desordem. E a desordem não fica no primeiro que comeu. Desce.


O título guarda tudo isso num único som que qualquer criança reconhece antes de saber ler. Au-ki-mia. A cadela que mia. A alquimia que não eleva — que revela. O ouro que estava lá não era o que Hermes prometeu. Era a natureza de Lili, que a guarda dos jardins havia disciplinado mas não transformado, e que o último gomo de uma tangerina colhida fora da hora foi suficiente para liberar.

O marcador de madeira com o índio entalhado de um lado e a serpente do outro — o punhal que percorre todo o livro — estava selecionando exatamente este conto na biblioteca do hostel. Não por acaso. Porque “Aukimia” é o conto que demonstra em escala doméstica e com uma cadela num sofá o que “Rosas não são para comer” havia formulado em escala cosmológica: que certas mudanças, uma vez feitas, não têm caminho de volta.

Sombra partiu. Hermes desapareceu na escuridão. A tangerina foi comida. E Lili mia.

A transmutação está completa. E é irreversível.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “Aukimia” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.

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PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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