De Frente para a Serpente: o que “O mercador de formigas” ensina sobre o único modo de vencer o que não pode ser evitado

Existe uma instrução técnica no coração de “O mercador de formigas” que a tradição iniciática sempre soube e que a maioria das pessoas aprende tarde demais: só existe um jeito de enfrentar a serpente — de frente. Quem pensa pegá-la por trás e morder sua cabeça erra fatalmente, porque ela pode se enroscar no pescoço e ambos morrem. A vitória da serpente não é pela força. É pelo elemento surpresa, pelo calmo estudo de empreitada e aproximação camuflada, pela entrada nos olhos que produz o sono febril que sugere a alma ao abate.

Babandjin sabia disso antes do confronto. E quando a serpente chegou pela amendoeira, esgueirou-se pelo telhado do vizinho, projetou-se pelo muro e ganhou os jardins, ele não fugiu, não circundou, não esperou um momento mais favorável. Sentou nas patas traseiras, ergueu o corpo ao ritmo da invasão dos olhos, e quando o golpe veio — a mentira em face da fé inabalável — a pata dianteira encaixou no contramovimento e martelou a cabeça quatro vezes.

Esse combate é o ponto de chegada de todo o livro até aqui. Cada conto anterior havia preparado o terreno: a identidade reconhecida através da perda, o fio seguido pelo labirinto, os enigmas vencidos no café, a promessa cumprida com Gondita, a natureza do Anfitrião desvendada. Tudo convergia para o momento em que o olhar dentro do outro olhar tornasse o primeiro movimento desnecessário — porque antes mesmo de acontecer, toda a dança já estava decidida.


Mas “O mercador de formigas” não é apenas o conto do confronto mítico. É também — e com a mesma seriedade — o conto de um menino que vende formigas embaladas em caixinhas de fósforo e acrílico de Tictac numa manhã de hostel. Saúvas mais baratas por serem maiores e fáceis de pegar. Cortadeiras mais caras por serem perigosas. Vermelhas vendidas mortas por serem impossíveis de pegar vivas. Cada tipo com sua variação de preço segundo suas características.

A menina queria brincar com as formigas com o menino mas não conseguia pegá-las. Tinha o dinheiro que a mãe lhe dava. O menino tinha as formigas. A negociação era inevitável — e o desequilíbrio também: ela não tinha intimidade com as formigas, e sempre que abria a embalagem elas fugiam. A caixa ficava vazia. Ela comprava uma nova caixinha.

Essa cena tem a estrutura de uma fábula — e a precisão de uma observação antropológica real. O menino questionado pelo narrador sobre a propriedade das formigas responde sem pestanejar: “São minhas. Eu as catei. Eu as embalei. São minhas.” É a declaração mais direta da estética da recepção que o livro oferece — e chega antes que o pai do menino, o escritor com anel de compasso e esquadro e a letra G, apareça para dar lições sobre o assunto.

Afinal, de quem são as histórias?


O pai do menino é o personagem mais precisamente observado do conto — e o mais revelador sobre um tipo humano específico que o narrador nomeia com uma honestidade que dispensa diplomacia: “esse tipo de gente me dá asco.” Não por maldade abstrata. Por uma série de detalhes concretos que o narrador foi colhendo nas entrelinhas: o café da manhã que virava almoço na praia, a água sempre reabastecida na bica do hostel, o café que caía na térmica para mais tarde, a pechincha sempre na ponta da língua. O homem que economizava palavras para não precisar escrever um romance.

E no pulso: um relógio, uma corrente discreta de ouro, e um anel com compasso sobreposto a esquadro e a letra G no espaço entre eles. O símbolo maçônico que o conto não explica porque não precisa — o bom entendedor já sabe de que tipo de gente se está falando, como o narrador mesmo diz.

A aposta das formigas é a armadilha que o narrador prepara com a paciência de quem já sabe o resultado antes do primeiro movimento — exatamente como Babandjin sabia o resultado do confronto com a serpente antes que ela desferisse o primeiro bote. O que é posto à prova na matéria já foi decidido em espírito. E o homem que trapaceia na prova — que esconde a caixinha no calção para nadar com mais liberdade — não falha porque foi pego. Falha porque precisou trapacear, o que significa que já havia perdido antes de entrar na água.

A mulher que dobrou a aposta e somiu às 3h da madrugada pagando o quarto em dinheiro é a versão adulta da menina que convenceu o garoto a brincar naquele dia e pagar depois de amanhã. Mesma instrução, mesma execução, mesma saída. O trabalho dos pais na cabeça de uma criança é fascinante — o narrador observou isso antes de saber que estava observando a transmissão do mecanismo entre gerações.


O saltimbanco que ensacava gatinhos de rua para estrelar na avenida da orla é o personagem que conecta o plano cotidiano ao plano mítico com uma brutalidade que o conto entrega sem drama excessivo. Batia com um pau no saco para extrair gritos de dor e aflição, fingindo ser ventríloquo. As famílias bem-sucedidas riam e se divertiam acreditando ser teatro. O ponto alto do show era quando os gatos paravam de gritar — então ele abria o saco e estrelas ascendiam ao céu num espetáculo de luzes e cores, os bolsos dos turistas vazios e o chapéu transbordando.

Almas dos meus, como Babandjin nomeia no diário. Vendidas como entretenimento. O sofrimento real transformado em produto de consumo pela ignorância inerte de quem prefere acreditar que é teatro.

Quando Babandjin retorna à praia e encontra o saltimbanco, já não há almas dentro do saco — apenas um aprendiz de ventríloquo. Já não há luzes do espírito e ceifa de almas por dinheiro — apenas um aprendiz a viver como se deve viver. Sentou-se à frente do saltimbanco e deixou que ele o visse triste. Depois de algum tempo se encarando, nunca mais o viu.

Não houve confronto. Não houve violência. Apenas o olhar — o mesmo olhar que havia dissecado a serpente e martelado sua cabeça quatro vezes — agora usado não para destruir, mas para revelar. O saltimbanco que viu Babandjin triste e nunca mais apareceu não foi vencido pela força. Foi vencido pelo reconhecimento do que havia feito, devolvido pelo único ser capaz de devolvê-lo sem filtro.


O desfecho é de um humor negro tão preciso que o riso e o horror chegam simultaneamente. Na orla, com a fome praiana, o narrador compra um espetinho que está estranho. Insiste: tem certeza que é alcatra? O tio da barraquinha aproxima o rosto com um sorriso psicótico e diz: “Não. Isso é carne de gato.” E quando o narrador olha para trás, a placa: “Espetinho do Gordo.”

Gordo — o gatinho forte de pelagem branca e olhos azuis que todos os dias trazia uma gatinha malhada para jantar, cujo movimento era introduzi-la para que ficasse bem no dia em que ele se fosse. A história que o narrador havia conectado ao escritor com o anel de compasso. O gato que desapareceu. O saltimbanco que vendia espetáculos de morte. E no final, a placa que fecha o círculo com uma ironia que a tragédia grega não teria coragem de propor: o gato virou espetinho.

O narrador come sem saber. E quando sabe, já comeu.

E então, no último parágrafo, o diário de Babandjin entrega a linha final do conto — e do ciclo inteiro que o mercado de formigas encena: “Nesse jardim tem um gato.”

Não como ameaça. Como declaração de presença. O gato que a serpente não conseguiu pegar porque foi enfrentada de frente. O gato que o saltimbanco não conseguiu ensacar porque o reconhecimento no olhar foi suficiente. O gato que virou espetinho na orla — e que mesmo assim, pelos diários, pelos contos, pela escrita que o narrador continuou fazendo, permanece nos jardins.

Nesse jardim tem um gato. E isso muda tudo.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “O mercador de formigas” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.

Foto de PauloGuerreiroFilho

PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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