É a Minha Caligrafia: como “Espelhos que se deslocam” instala o dispositivo que governa o livro inteiro

Existe um tipo de final de conto que não encerra — instala. Não resolve a tensão acumulada, não entrega a resposta que o leitor esperava, não fecha o círculo com a satisfação da conclusão esperada. Faz o oposto: no último instante, revela que o chão em que o leitor estava pisando não era o que parecia, e que tudo que leu antes precisará ser relido com olhos completamente diferentes.

“É a minha caligrafia.”

Três palavras. Um sussurro. E o livro inteiro muda de natureza.


O conto começa com uma cena de aparente simplicidade: um narrador se acomoda ao lado da lareira na biblioteca do hostel, abre os diários de Babandjin — um gato cujo nome significa o gênio do Pai — e começa a transcrever. O Anfitrião traz lenha. Há vinho gelando. A noite avança. É a imagem arquetípica do estudioso, do escriba, do guardião de histórias que alguém outro viveu e que agora precisam ser trazidas à luz.

O narrador está no controle. Ou acredita estar.

Essa crença é o que o conto vai desfazer com a paciência de um relojoeiro — peça por peça, sem pressa, sem anunciar o que está fazendo.


O primeiro enigma que os diários colocam é formulado antes que qualquer história seja contada: você está mesmo no controle de suas escolhas? A pergunta não é retórica nem filosófica abstrata. É o primeiro movimento do dispositivo. O narrador a cita como se viesse dos diários — mas ela também vem de dentro dele, da mesma forma que a caligrafia que encontrará no final vem de dentro dele.

A história de Mia — a gata que foi morta por Cérbero no lugar de Babandjin, que havia caído numa armadilha semeada para outro, atraída pelo cheiro da inocência — é o primeiro espelho que os diários oferecem. A armadilha antiga semeada para mim, não para ela. A substituição que opera pelo amor — o mesmo princípio que “Cama de gato” desenvolveria na morte de Érica, que “Cordas do templo” exploraria no fio de lã, que “Rosas não são para comer” levaria às consequências cosmológicas. O conto-título planta a semente de tudo que virá.

E então vem a gargantilha. A menina Maria de quatro anos, deslocada dos pais que fingem amabilidade para obter vantagens. Babandjin que tece a gargantilha de conchas e búzios com propósito. Cérbero que arranca o adorno com os dentes enquanto os pais não olham. E Babandjin no alto do muro, devolvendo ao cão derrotado o olhar mais debochado que havia em mim, inclinando levemente a cabeça num gesto glacial de satisfação e ironia.

Esse olhar — glacial, satisfeito, irônico — é o olhar de quem viu o mecanismo operar exatamente como havia previsto. Não é crueldade. É o terceiro olhar que Babandjin descreve como o cerne de entender a natureza humana e seus artifícios. A gargantilha era o instrumento. Cérbero era o instrumento. O pai que amassou a cabeça do cão com uma paulada era o instrumento. Tudo se moveu como havia sido tecido — nos fios e nos destinos que as patas hábeis de Babandjin entrelaçam.


O Anfitrião, trazendo lenha, revela sem querer revelar: houve um jornalista antes do narrador. Entrevistou Ângela. Sofreu um terrível acidente e faleceu. As entrevistas estão na estante à direita dos diários. O sorriso enigmático indica que o Anfitrião sabe mais do que diz.

Essa informação é jogada de forma casual — lenha, vinho, temperatura que despenca, o sorriso que não explica. Mas ela instala uma segunda camada de inquietação que o narrador resolve suprimir para continuar a transcrição. Não ser o primeiro a explorar a biblioteca causa desconforto. Ele deixa o sentimento de lado.

É o mesmo gesto que o leitor fará: deixar o desconforto de lado para continuar lendo. E é exatamente esse gesto que o conto estava esperando.


Quando o narrador desce para buscar vinho e volta, o marcador de madeira havia retornado à estante por conta própria. Agora selecionava páginas dentro dos manuscritos da entrevista que o jornalista fizera com Ângela.

O marcador se move sozinho. O narrador paralisa ao ler as páginas selecionadas.

E então: “É a minha caligrafia.”

O dispositivo se fecha. E abre.

Porque essa frase não é apenas a revelação de que o narrador é Babandjin — embora seja isso também. É a revelação de que o narrador estava lendo a si mesmo sem saber, que os diários que transcrevia eram sua própria memória, que o hostel onde chegou com uma mochila e uma mala de rodinhas não era um destino casual mas o lugar onde sua própria história estava guardada esperando que ele chegasse até ela.

E o leitor, que acompanhou o narrador nessa jornada, percebe que também foi lendo a si mesmo sem saber. Que os espelhos do conto — Mia que morreu no lugar de Babandjin, a menina Maria deslocada dos pais, o jornalista morto antes de terminar o trabalho — eram espelhos de algo que ele mesmo carrega e ainda não nomeou completamente.


O título do livro não é uma metáfora decorativa. É a descrição exata do que o dispositivo faz. Os espelhos se deslocam — não ficam parados esperando que você os encontre. Eles se movem. Reposicionam. E quando você finalmente olha para o lugar onde esperava encontrar sua própria imagem, o que está lá é ligeiramente diferente do que antecipou.

Ligeiramente diferente — não completamente outro. Esse é o horror e a beleza do deslocamento: não é a ruptura total que a mente poderia rejeitar como fantasia. É o segundo a mais diante do espelho, o instante em que o reflexo demora um momento para parecer seu. Reconhecível o suficiente para não fugir. Estranho o suficiente para não ignorar.

“É a minha caligrafia” é esse segundo a mais. O narrador olhou para as páginas que o jornalista morto havia transcrito — e reconheceu. E o reconhecimento não é confortável. É a pergunta mais perturbadora que qualquer ser humano pode se fazer: se o que estou lendo é minha própria história, escrita antes que eu a vivesse, então eu estava mesmo no controle de minhas escolhas?

O primeiro enigma retorna. Agora com o peso de uma resposta que o conto não entrega — porque a resposta pertence ao leitor, não ao texto.


Que esse conto tenha vencido o certame “O mal que nos habita” não surpreende a quem o leu com atenção. Porque o mal que nos habita — o título que o certame escolheu como tema — é respondido por este conto de uma forma que nenhuma abordagem direta alcançaria. O mal que nos habita não é exterior. Não é Cérbero, não é o casal de pais negligentes, não é o Anfitrião que sabe mais do que diz. É o desconhecimento de si mesmo. É o narrador que transcreve durante horas os diários de um outro sem perceber que está lendo sua própria letra. É o leitor que percorre o livro inteiro procurando Babandjin sem perceber que já o é.

O espelho não mente. Apenas se desloca — o suficiente para que a imagem que devolve seja mais verdadeira do que a que esperávamos encontrar.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. O conto “Espelhos que se deslocam” deu nome ao livro homônimo, em pré-lançamento.

Foto de PauloGuerreiroFilho

PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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