O Gatinho que Lutava contra o Espelho: o que “Fotografia” ensina sobre o leitor que não se reconhece na própria leitura

Há uma cena em “Fotografia” que tem a brevidade e a precisão de uma fábula zen: um gatinho branco luta contra o espelho da galeria. O narrador observa e formula a questão com uma elegância que faz a filosofia parecer simples — o que é, talvez, o maior elogio possível. O gatinho não vê um espelho. Não vê sua própria imagem. Vê um outro — um intruso, uma ameaça, uma aparição contra a qual se lança em combate.

“Se a imagem projetada não é identitária de si, o indivíduo refletido será um outro qualquer, ou uma espécie de fantasma ou aparição contra a qual nos lançamos em combate.”

Essa frase é o coração do conto e, de certa forma, o coração de todo o livro. Porque o que Espelhos que se deslocam faz, do primeiro ao último conto, é colocar seus personagens — e por extensão seus leitores — diante de espelhos que devolvem imagens ligeiramente deslocadas. E a questão que cada conto coloca, de formas diferentes, é sempre a mesma: você reconhece quem está lá?

O gatinho branco não reconhece. E luta.


“Fotografia” é o conto de Espelhos que se deslocam que mais explicitamente trata da consciência como tema — não pelo caminho da filosofia densa, como “A Noite Mística”, nem pelo caminho da perda, como “Cama de gato”, mas pela via do cotidiano observado com atenção. O narrador está na galeria, tentando escrever. Há uma janta, convidados, um fotógrafo nervoso, um pastor evangélico sendo desarmado por uma mulher chamada Jéssica, a esposa do pastor rastreando a conversa com olhos de inveja silenciosa. Tudo acontece na superfície mais banal da vida social de um hostel numa noite qualquer.

E é exatamente nessa superfície banal que o conto insiste em revelar as mesmas estruturas profundas que os outros contos trabalham por vias míticas e filosóficas. A intenção como partícula invisível que determina o sentido de toda ação. A persona social como máscara que esconde e revela simultaneamente. A alma humana que — como Babandjin afirma e o narrador confirma ao observar os olhos da esposa do pastor — está sempre dentro dos olhos, mesmo quando a boca diz outra coisa.

A operação técnica que o conto realiza é a transposição do mítico para o cotidiano — ou melhor, a revelação de que o cotidiano já contém o mítico, desde que o observador saiba onde olhar.


Jéssica é um dos personagens mais fascinantes do livro justamente porque aparece apenas numa cena, sem nome de gata, sem dimensão mítica explícita, sem ser nomeada como Érica ou Gondita ou Milla. É apenas uma mulher alta de quarenta anos num sofá em L, conversando com um pastor evangélico sobre tradição judaica e peripécias gregas. Mas o narrador a descreve com a mesma atenção que dedica às figuras dos diários — e com razão.

O que Jéssica representa nesse conto é a inteligência feminina que opera num terreno onde não é esperada, que desloca o pastor do seu território com uma paciência que mistura sabedoria de anciã com frescor de donzela, e que conduz a conversa para o seu terreno sem que o interlocutor perceba o momento exato em que perdeu o controle da direção. A esposa do pastor percebe — seus olhos rastreiam com mais acuidade do que a do narrador — mas não diz nada. Fica calada, observando, invejando não a beleza física de Jéssica mas as palavras, que “nenhum ousado decote poderia superar.”

Aqui está o eco de “Rosas não são para comer” transposto para a linguagem do cotidiano: a inveja não é do corpo, é da palavra. A mulher que não pode ter o que a outra tem não é a que exibe menos o corpo — é a que domina menos a linguagem. E a linguagem, em Espelhos que se deslocam, é sempre o instrumento que abre ou fecha os jardins.


A cena do fotógrafo e do Anfitrião com a panela borbulhante é o momento mais próximo da comédia que o livro tem — e é também, por isso, o mais instrutivo sobre como o humor funciona em literatura séria sem destruir o que a seriedade construiu.

O fotógrafo é minucioso até a crueldade involuntária. Ajusta o enquadramento, exige a regra do terços, reclama da simetria, pede dois convidados à esquerda e três à direita, volta ao tripé, recalibra, confere os arquivos — tudo isso enquanto Anfitrião segura uma panela de barro borbulhante no centro do peito, com o rosto avermelhado, suando, sem poder descansar as mãos porque o fotógrafo nunca termina de alinhar. O que é cômico não é a dor de Anfitrião. É a perfeita obliviosidade do fotógrafo, que persegue a simetria ideal enquanto a realidade concreta de um homem em sofrimento acontece diante de suas lentes sem nunca entrar no enquadramento.

Essa é uma observação sobre a fotografia como metáfora do olhar — e sobre o perigo de qualquer olhar que privilegia a composição da imagem em detrimento do que a imagem contém. O fotógrafo captura o jantar com precisão técnica impecável. Mas o que estava realmente acontecendo naquela cena — as mãos borbulhando em larvas, como Anfitrião grita ao quebrar a pose — estava fora do enquadramento.

Para um escritor, essa cena é um aviso: o enquadramento que você escolhe para uma história determina o que fica dentro e o que fica fora. E o que fica fora com frequência é exatamente o que tornaria a história verdadeira.


O título do conto é, ele mesmo, um comentário sobre esse problema. “Fotografia” é o único título do livro que nomeia uma forma de representação em vez de nomear um personagem, uma situação ou um estado. Uma fotografia captura um instante — e por capturá-lo, fixa o que estava em movimento, apaga o antes e o depois, e transforma a realidade viva em imagem estática.

O narrador confessa no final do conto que “ficou sem saber como descrever a forma como Malagueta e Fantasma foram dragados dos jardins” — e que deixou “que a inicial proposição sobre espelhos completasse a lacuna para o leitor.” Em seguida, observa com honestidade: “Pode parecer técnica que privilegia o leitor; mas, quem escreve sabe que se trata de uma conveniência textual. As bordas do retrato delimitam a forma fotográfica. A escrita também tem suas limitações.”

Esse momento de auto-reflexividade — o autor dentro da narrativa reconhecendo os limites do que a escrita pode mostrar — é raro em ficção e extraordinariamente honesto. A maioria dos escritores prefere que o leitor não veja as costuras. O narrador de Espelhos que se deslocam mostra a costura deliberadamente, porque a costura faz parte da mensagem: toda representação tem bordas. Toda fotografia enquadra e exclui. Toda escrita tem o que pode e o que não consegue dizer. O que fica fora do enquadramento não é invisível — é o espaço onde o leitor precisa entrar para completar o que o texto deixou em aberto.


O gatinho branco que luta contra o espelho é a imagem mais compacta de algo que a leitura — qualquer leitura séria — eventualmente produz: o encontro com uma representação de si mesmo que não parece familiar o suficiente para ser aceita como verdadeira, e não parece estranha o suficiente para ser descartada como irrelevante. Essa zona de estranhamento produtivo é onde a literatura opera quando funciona bem. Não no reconhecimento confortável — “esse livro fala exatamente o que já penso” — nem no estranhamento total — “esse texto não tem nada a ver comigo.” Mas naquele instante de desconforto onde o leitor olha para a imagem no espelho e hesita, porque não sabe ao certo se o que vê é si mesmo ou um outro.

O gatinho luta porque não reconhece. O leitor que chega a essa hesitação está no lugar certo. Ainda não reconheceu. Mas está olhando.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “Fotografia” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.

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PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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