Há um gato parado no corredor do hostel, imóvel, fitando um ponto escuro que eu não consigo ver. Observo. O desconforto que sinto não é racional — é arcaico. O bicho percebeu algo antes de mim.

Nasci no Rio Grande do Sul e passei a infância viajando pelo interior do estado, atrás das profissões dos meus pais. Muitas mudanças de endereço. Muitas coisas perdidas nelas — incluindo um gibi que eu havia escrito e desenhado inteiro no colégio, cheio dos defeitos de foco que todo escritor iniciante carrega sem saber que carrega. Porto Alegre ficou sendo a cidade natal, mas a identidade que se forma em trânsito é outra coisa. Aprende-se cedo que os lugares não ficam — e que, às vezes, isso é uma vantagem.

O direito veio pela PUCRS. Depois a advocacia, que ainda exerço. Depois o Espírito Santo, onde administrei um hostel por mais de uma década. Um hostel situado num limiar geográfico real — entre o mar e a montanha — onde chegavam e partiam pessoas que deixavam ali versões de si mesmas que só existiam naquele lugar, suspensas entre o que haviam deixado e o que ainda não sabiam que encontrariam. Observar isso, sistematicamente, é o que originou os cadernos.

Os cadernos viraram uma pesquisa. A pesquisa virou ficção. A ficção virou Espelhos que se deslocam. Não foi planejado assim — foi o que acontece quando alguém observa com atenção suficiente por tempo suficiente: o material encontra sua forma. Em 2018 voltei à PUCRS, desta vez para a graduação em Escrita Criativa. Terminei em 2022, com cinco prêmios nacionais acumulados no intervalo e contos publicados em antologias no Rio Grande do Sul, no Paraná e em Alegrete.

O que aprendi — e é isso que este blog existe para  explorar — é que escrever não é acrescentar. É reconhecer. Um texto que funciona não deposita sentido no leitor: ativa o que o leitor já carregava sem linguagem para nomear. A história visível é o corredor. A história secreta é o ponto escuro que o gato estava fitando.

O gato se chama Babandjin. O livro é sobre ele — e não é sobre ele. Se você chegou até aqui, já sabe do que estou falando.

Paulo Guerreiro Filho é escritor, advogado e autor de Espelhos que se deslocam, em pré-lançamento. Vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura (ALACS, 2020) e do Concurso Literário Motus #6 (UNIPAMPA, 2022), entre outros. Fala a linguagem primeira.

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PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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