Depois do sucesso de Espelhos que se Deslocam nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”, que me renderam duas publicações para esse conto, dediquei mais três anos a alinhavar suas continuações. Por essa razão, o livro recebeu o mesmo nome do conto inicial.
A existência de Babandjin foi alicerçada na convivência com felinos no hostel onde se passam as histórias — origem também da ideia do duplo —, embora eu não tivesse, àquela época, aspirações à literatura fantástica. Inicialmente tratava-se de uma tímida pesquisa com interesse antropológico, aproximando de forma específica as bases de convivência entre os gatos e observando como os seres humanos desenvolveram bases semelhantes de modo inconsciente, incorporando-as às suas relações sociais.
Essa investigação acabou por conduzir a uma desconstrução estrutural da dinâmica social humana, levando-me a portais intelectuais que eu não imaginava alcançar por meio dessa linha de investigação. Assim, os diários são reais e remontam a uma trajetória em tradições iniciáticas de metodologia antiga, explorando o retorno à identidade em conexão com as esferas da terra.
Dessa forma, procurei manter a continuidade da narrativa por meio dos diários — parte essencial da técnica empregada —, porém migrando-os para dentro da atmosfera do conto e fazendo deles também um ponto de intersecção entre duas histórias: aquela que se passa no hostel e aquela que se desenrola nos próprios diários.
Esse movimento apresentou-se de forma inesperada para mim: reformular a contação de fábulas, remontando à forma primeira pela qual experiências iniciáticas eram transmitidas às esferas mundanas.
Também foi em Espelhos que se deslocam que surgiu o alerta sobre como a forma do conto contemporâneo pode distorcer a verdade por trás da história. Por isso, reescrevi o texto já pensando em uma versão que servisse a um livro, ainda que isso implicasse retirar parte da força de impacto presente na narrativa original.
Inicialmente pensei em escrever sete contos que traçassem a transformação do personagem central por meio dos sete pecados capitais. A ideia, porém, não funcionou, e tudo foi readaptado após o conto “Cama de gato”. Quando nomeei esse conto e o inscrevi em um concurso literário — fazendo explícita alusão à expressão dantesca — recebi uma advertência de meu mestre espiritual: a de não fazer referência direta a entidades.
Isso porque repetições numéricas dessa natureza remetem a signos que passam a integrar o repertório inconsciente do leitor. Por consequência, alterei o nome do conto e retirei as referências a outros signos do corpo textual dos demais contos.
Essa alteração produziu um efeito cascata em todas as histórias, permitindo que o leitor atento compreenda que as intenções do livro são dissonantes de um simples passeio dantesco pelos infernos. Trata-se, antes, de um percurso em que cada juiz dos sete ciclos é vencido.
Desse modo, a impossibilidade dessas referências refletiu-se em toda a obra: uma vez vencidos, tais poderes não poderiam retornar ao mundo como regentes do presente trabalho.
Em um segundo momento, empreendi mais cinco textos — também em dissonância com o modelo dantesco — explorando a superação do local de espera e do segundo céu (o que explica por que, na realização em vida, Dante Alighieri nunca permaneceu com Beatriz).
Assim, todos os relatos apresentam como subtexto visível as vicissitudes humanas, enquanto, em camadas mais profundas, residem simbologias que remetem aos juízes, comunicando de forma aberta uma mensagem secreta, à maneira de O conto da serpente verde e da linda Lílie, de Goethe.
Além de Goethe e Dante, o leitor mais atento poderá identificar ecos da técnica narrativa de Borges, bem como intertextos com “Scarborough Fair”, que funciona como uma espécie de espinha dorsal da obra. Mesmo adaptados, todos os argumentos foram artesanalmente alinhavados com o propósito de desestabilizar o leitor, sem necessariamente obedecer às estruturas academicamente consagradas do conto moderno ou contemporâneo.
O resultado é uma arquitetura narrativa não linear, que salta entre diferentes momentos no tempo e cria um senso de mistério e suspense, induzindo o leitor a montar gradualmente o quebra-cabeça da história.
O último conto — cuja amostra está disponível neste site — corresponde à peça final desse quebra-cabeça.
O mistério dos olhos de Babandjin gira em torno daquilo que chamamos de verdade. Talvez o leitor esteja pensando quão ingênuo pode parecer alguém pretender defini-la, ainda que suas intenções não se apresentem como ciência, filosofia ou religião, mas como literatura — arte que, de certo modo, engloba todas essas esferas.
Mesmo trabalhando simbolicamente com os quatro elementos, há sempre a possibilidade de não ser plenamente compreendido.
Um bom começo seria observar a simplicidade da superfície, pois é por meio do que está à vista que o oculto se revela. Creio que esteja aí o propósito da literatura presente nestas histórias: não mentir nem falsear a verdade, mas transmutá-la de modo que o signo humano seja capaz de compreendê-la.
Longe de mim discordar de que cada pessoa possui uma forma peculiar de receber a literatura, pois o sofrimento do protagonista jamais será idêntico ao de qualquer leitor — ainda que, ao mesmo tempo, pertença à condição humana universal.
Por isso, a intenção fundamental desses textos não é transmitir conhecimento nem apresentar o depoimento da vida de alguém. Tampouco me interessa fazer uso ideológico da literatura. O objetivo é oferecer as chaves espirituais contidas nestas linhas para que cada leitor realize suas próprias “viradas de chave” em seu coração.
Assim, a literatura funciona como uma transdução da dinâmica metafísica para a dinâmica da realidade física. É em torno dessas esferas que incide a poética das transduções presentes nos diários de Espelhos que se deslocam.
Esse é o grande paradoxo do oitavo mandamento diante da natureza humana: a pureza do espírito confrontada com a matéria. A literatura, nesse sentido, torna-se testemunho, pois, em um mundo onde certas verdades não podem ser ditas diretamente, elas permanecem pronunciadas sob o manto da literatura.
O segredo dos olhos de Babandjin conduz a uma resposta: a verdade não está no observador, mas no movimento.
É ao compreender como se age sem o véu que recobre as ações humanas que nos colocamos nos olhos dele. Isso ocorre porque o foco do observador frequentemente se perde em visões de mundo que acabam erguendo barreiras à compreensão da vida espiritual.
A partir dessa perspectiva, tudo o que precisei fazer foi relatar seus dias como se eu próprio fosse um espelho. Contudo, quem se desloca no espelho é o leitor. Sua alma humana move-se entre memórias e sombras à luz das ações; e, quando essas imagens são focalizadas, percebemos que são os espelhos que realmente se deslocam.
Assim posso afirmar, neste mundo de espelhos em movimento: crer em Deus significa acreditar no invisível. Essa é a chave da fé que move montanhas e onde reside o verdadeiro Deus.
Foi por meio dessa percepção que encontrei a cartada final do inimigo, em um jogo de imagem e semelhança. Aquilo que verdadeiramente somos transforma-se em autorretrato da humanidade diante da face do inimigo — e, diante dos fatos, não há narrativa que prevaleça.
Decidi expor minhas razões de escrita não porque acredite que o leitor comum seja incapaz de compreender em profundidade a proposta dos contos, mas porque vivemos em tempos estranhos, nos quais signos e significados são corrompidos e relativizados com uma velocidade espantosa, muitas vezes para satisfazer a própria estupidez humana.
Prefiro, portanto, iniciar pelo final, onde essa proposta literária não falta à imagem transversa.
O conto “A mensagem e o mensageiro” foi artesanalmente alinhavado com o intuito de trazer à memória aquela que me viu do outro lado. Não como um espelho — pois, nesse ponto da narrativa, os espelhos já foram vencidos —, mas como um mapa.
Além disso, o leitor iniciado em tradições simbólicas poderá perceber na história o motor do mistério, que revela e investe o narrador em uma identidade ancestral, assumindo o arquétipo do pai simbólico.
O mecanismo técnico e narrativo de A mensagem e o mensageiro encontra em seu próprio título o propósito primeiro da boa literatura: enviar a mensagem ideal à pessoa certa.
Se o leitor atento perceber que esse propósito ultrapassa os limites da literatura e invade o campo da realidade vivida, então o efeito do conto terá se cumprido de forma quase messiânica em sua alma.
Todas as alegorias funcionam simbolicamente na estrutura do conto. No motor subtextual podem ser encontrados elementos como o Barco de Teseu, Gabriel — o mensageiro bíblico —, a mensagem ao sagrado feminino no arquétipo de Maria, as lembranças da alma restabelecendo a conexão com a natureza primitiva no arquétipo do guia representado pelo gato Babandjin, e a revelação indenitária primordial.
Ao mesmo tempo, o conto também funciona dentro do livro como um epílogo para a trajetória de Babandjin em Espelhos que se deslocam, projetando-a para além dos limites das páginas.