Em 1970, Ozzy Osbourne voltava para casa tarde da noite quando olhou pela janela e se assustou com o que viu. Fadas dançando de botas com um anão. Foi ao médico. O médico disse que havia ido longe demais — que fumar e viajar era tudo que ele fazia, e que não havia remédio para o que ele via.

Em Espelhos que se deslocam, o narrador olha pela janela do quarto, tarde da noite, e vê a mulher de cabelos pretos lisos, o garoto de óculos e o Anfitrião trotando no pátio ao redor da fogueira, como se dançando estivessem. E registra uma linha apenas: “Suas botas ecoavam uma melodia nada gentil.”

A mesma janela. A mesma visão que o mundo ordinário recusa validar. E a mesma conclusão que nenhum médico pode tratar — porque o que o narrador vê não é uma alucinação. É a estrutura mais antiga da história humana encenando-se numa noite qualquer de hostel entre o mar e a montanha.

“A clara visão do mecanismo da serpente.”


O conto foi construído sobre o esqueleto rítmico de “Fairies Wear Boots” do Black Sabbath — e essa origem não é decorativa. É doutrinária. A música nasceu de uma agressão real: skinheads atacaram o Black Sabbath após um show, chutando-os com suas Doc Martens, e Ozzy os chamou de fadas para devolver a inversão — os que exercem violência são os que deveriam ser delicados, e os que deveriam ser delicados são os que recebem as botas. Fairies wear boots. Fadas usam botas. O paradoxo que a música formula é o mesmo que o conto vai desdobrar em toda sua extensão teológica: o que deveria ser leve calça o instrumento do estrondo, e o que deveria ter força move-se em silêncio, sem deixar rastro audível.

Gatos não usam botas. Porque o gato não precisa anunciar o que é.


O menino de óculos de armação azul quadrada chegou ao hostel encharcado de chuva, tirou as botas marrons e esperou. Tinha uma razão específica para estar ali: queria comemorar o aniversário com o pai. O carro chegou, buscou o menino, voltou antes do horário — largou o filho e foi embora. O menino voltou chorando com a revelação: aquele não era seu pai.

Mas o conto já havia entregado, para o leitor atento, a informação que o menino não tem. Quando o carro parou, o narrador estava conversando com o Anfitrião no quintal. O Anfitrião estava ali. Presente. E a mulher de cabelos pretos lisos — identificada nos diários pela aroeira guardiã como “uma das filhas dele” — é a mãe do menino.

O homem do carro era o padrasto. O pai biológico do menino é o Anfitrião — aquele que se define com a frase mais reveladora do livro: “a mesma natureza de todo homem.” A revelação que o menino recebeu é verdadeira e incompleta ao mesmo tempo. Descobriu quem não era seu pai. Não descobriu quem é.

E tarde da noite dança ao redor da fogueira com a mãe e com o pai que não sabe que é seu pai.


Para entender o que essa cena contém, é preciso recuar ao momento em que Eva fez sua escolha — não como evento histórico, mas como princípio. A mulher de cabelos pretos lisos é Eva nesse sentido: aquela cuja opção espiritual comprometeu a filiação. “Ela é uma das filhas dele” — filha do usurpador, não do Criador. E quando uma alma faz essa escolha, ela não apenas se perde. Ela gera. Produz descendência marcada pela mesma herança. Não por maldade consciente — por continuidade de uma escolha que está acima do nível onde a consciência ordinária opera.

O filho que essa filiação produz não é livre para escolher Abel. É Caim — carregando desde o nascimento a ira como substância, a tormenta dentro do cristal como condição, sem que nenhuma culpa individual possa explicar completamente por que o cristal, quando quebra, vai exatamente onde a leveza não se protegeu.

Meaw é Abel. Resgatado num saco plástico ao pé da aroeira, cresceu como melodia, com listras que vibravam em beleza e cor, com aptidão natural para o amor e sem dotes de luta. Seus trejeitos refinados eram um convite à ira dos machos — porque a beleza genuína, a leveza real, a graça sem artifício provoca nos que não têm essas qualidades a tormenta que precisa de cristal para não transbordar imediatamente.

E quando o cristal quebrou, foram as botas que falaram.

O homem de botas que matou Meaw a chutes não agiu contra sua natureza. Agiu pela lógica da herança — pela imagem que o espelho do mundo devolve quando alguém descende da filiação errada e ainda não encontrou a saída do ciclo. A morte de Meaw não é punição, nem acidente, nem maldade abstrata. É a continuação inevitável de uma história que começou antes do conto, antes do hostel, antes do menino de óculos encharcados que queria celebrar o aniversário com o pai.

Em um ato de ira, Caim mata Abel. A estrutura é sempre a mesma. Só os nomes mudam.


O que torna o conto perturbador de uma forma específica é que não narra o assassinato. Narra o momento anterior — a formação. O menino que dança ao redor da fogueira com a mãe e com o Anfitrião ainda não sabe que é Caim. A ira ainda está dentro do cristal. As botas ecoam uma melodia nada gentil — mas ainda é melodia, não violência declarada. O conto termina antes do ato porque o que interessa não é a conclusão que todos conhecem, mas o percurso que a torna inevitável quando a herança não é reconhecida e o ciclo não é quebrado.

Esse é o mecanismo da serpente que o narrador reconhece pela janela: não um evento isolado, mas uma estrutura que se repete — em Meaw e no homem de botas, na mulher que descarta um filhotinho num saco e na mãe que silencia sobre a paternidade do filho, no padrasto que revela não ser o pai e no Anfitrião que está no quintal presente e invisível na sua função real.

A serpente não age uma vez e desaparece. Ela instala um padrão. E o padrão se reproduz em cada geração que não recebe a informação completa sobre de quem descende.


A promessa fundadora do Gênesis — “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” — é a declaração de paternidade da humanidade. Mas o que Espelhos que se deslocam constrói conto a conto, com a paciência de quem semeia para o leitor atento, é a hipótese que a teologia oficial sempre preferiu não formular com essa clareza: que a imagem que os atos humanos refletem no mundo não aponta para o Criador, mas para o usurpador. Que quando a humanidade olha no espelho e pergunta de quem herdou os traços, a resposta honesta aponta para aquele cujo nome não se pode escrever ao vento.

O menino de óculos que chora porque o padrasto não era seu pai é a imagem mais precisa possível da humanidade diante dessa revelação incompleta: descobriu o que não era, mas ainda não sabe o que é. E o perigo não está no choro — está na dança que se segue. Na melodia nada gentil das botas ao redor do fogo com aquele que é, de fato, seu pai, sem que nenhum dos dois precise nomear o que está acontecendo para que o mecanismo continue operando.


Ozzy foi ao médico e o médico disse que ele havia ido longe demais. Que não havia remédio. Babandjin olhou pela janela e não foi ao médico. Registrou o que viu — porque reconheceu nos diários o mesmo padrão que se encenava no pátio, e porque quem leu os diários sabe que o único instrumento que pode interromper o ciclo não é a força, não é a violência, não é a boot que esmaga.

É a informação. A revelação completa, não a parcial. O nome dito, não apenas o nome negado.

Gatos não usam botas porque o gato não precisa do estrondo para existir. Move-se sem anunciar. Atravessa pela passagem entre as trepadeiras. Toma os sonhos quebrados nos braços e os traz de volta para dentro do hostel.

E pela janela, tarde da noite, vê Caim dançando com o pai ao redor do fogo — e registra. Porque a visão que o mundo recusa validar é exatamente a que precisa ser dita.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “Gatos não usam botas” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.

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