Leitura como Ato de Reconhecimento: o que os diários de Babandjin ensinaram sobre o que significa realmente ler

Há uma cena no hostel entre o mar e a montanha que me perseguiu por anos antes de encontrar palavras para ela. Um gato — o mesmo que depois se tornaria Babandjin nos meus diários e, mais tarde, num livro — parou no corredor, fixou um ponto escuro na parede e ficou ali, absolutamente imóvel, por um tempo que parecia longo demais para ser apenas comportamento animal. Eu o observava. E por alguns segundos, o desconforto que senti não era racional. Era aquela sensação arcaica de que o bicho havia percebido algo antes de mim.

Aquele momento não me ensinaria nada sobre gatos. Me ensinaria sobre leitura.

Demorei para entender por quê. A conexão só ficou clara quando comecei a transcrever os diários reais que eu havia mantido durante aqueles anos de convivência — uma pesquisa que começou como investigação antropológica sobre as bases de comportamento felino e as estruturas sociais humanas que inconscientemente as replicam, e que terminou como um livro de ficção iniciática. No intervalo entre o caderno e o manuscrito, algo se revelou sobre o ato de ler que nenhum artigo sobre leitura ativa havia me dito com clareza: ler não é absorver. É reconhecer.

A distinção parece pequena. Não é. Ela muda tudo.

Absorver informação é um processo de acumulação. O leitor vai ao texto como um recipiente que vai ao poço: sai mais cheio do que entrou. Essa é a metáfora dominante quando se fala em leitura ativa — engajamento, anotação, releitura, fichamento, aprendizado progressivo. Todas essas práticas têm valor. Mas descrevem apenas uma camada do que acontece quando um texto realmente atravessa alguém.

Reconhecer é diferente. É o processo pelo qual algo que já estava dentro do leitor — silenciado, sem linguagem, enterrado sob a automação da vida cotidiana — encontra num texto a forma que faltava para existir plenamente. O leitor não sai mais cheio. Sai mais inteiro. A diferença é da ordem do ser, não do saber.

Isso é o que os diários de Babandjin fizeram comigo. E é o que Espelhos que se deslocam, o livro que nasceu deles, tenta fazer com quem o lê.


Quando comecei a observar os gatos do hostel com interesse sistemático, não tinha ambições literárias. O que me movia era uma hipótese antropológica: que seres humanos desenvolveram, de forma inconsciente, estruturas de convivência e hierarquia notavelmente similares às dos felinos domésticos. A forma como um grupo de gatos negocia território, estabelece hierarquia por presença em vez de força explícita, interpreta sinais invisíveis para humanos — tudo isso tinha um espelho perturbador nas dinâmicas que eu observava entre os hóspedes.

O que eu anotava nos cadernos não era ficção. Era observação. Episódios com nomes reais transformados, comportamentos registrados, padrões que se repetiam com uma regularidade que começava a parecer menos sociológica e mais cosmológica. Havia algo no ritmo daquele hostel — situado num limiar geográfico real, entre o oceano e a montanha — que amplificava tudo. As chegadas e partidas dos hóspedes criavam um laboratório natural de identidade em trânsito. Cada pessoa que atravessava aquele portão carregava uma versão de si mesma que só existia ali, suspensa entre o que havia deixado e o que ainda não sabia que encontraria.

Foi nesse contexto que a investigação se transformou. As bases de convivência dos gatos me conduziram, por uma lógica que só consigo descrever como portais, a tradições iniciáticas de metodologia antiga — formas de transmissão de conhecimento que operam exatamente pelo mecanismo do reconhecimento, não da instrução. Não se ensina quem alguém é. Cria-se as condições para que essa pessoa se lembre.

A frase que estrutura o livro inteiro emergiu daí: a lembrança de quem somos começa pela recordação do verdadeiro nome.


Existe um paradoxo no coração da leitura ativa que raramente é nomeado. Quanto mais ativamente um leitor persegue o significado de um texto, mais corre o risco de nunca encontrá-lo. Porque o significado que transforma não é o que se extrai — é o que se recebe quando a guarda baixa.

O texto que age no inconsciente do leitor, como descrevo no conto “Jasão, o gatinho dourado”, funciona como o que chamei de indução: opera no subtexto, camufla-se na corrente da narrativa, perpassa pelos níveis de consciência sem resistência. O leitor não percebe qual fio foi puxado em sua realidade. Percebe apenas, horas depois, que algo mudou.

Isso não é misticismo narrativo. É técnica. E é também uma descrição precisa do que acontece quando se lê com presença real, em vez de com eficiência.

A leitura eficiente maximiza extração: sublinha, conecta, memoriza, sistematiza. É valiosa. A leitura com presença, por outro lado, suspende o impulso de capturar e permite que o texto faça o que textos de certa qualidade fazem quando não são interrompidos: habitam o leitor. Instalam-se nos espaços onde ficam as lembranças que o cotidiano soterrou.

Certa vez, num daqueles fins de tarde no hostel, reli um trecho dos meus próprios diários — um registro da morte de Érica, a gata que havia sido envenenada em meu lugar — e percebi que a cena que eu havia escrito meses antes não era sobre Érica. Era sobre qualquer coisa que alguém perde antes de compreender o que havia ganhado. A cena havia sido maior do que eu enquanto a escrevia. Precisei lê-la como leitor para entendê-la como escritor.

Esse deslocamento — o autor que precisa tornar-se leitor da própria obra para alcançar seu significado — é a forma mais reveladora que conheço de que ler é um ato de identidade, não de instrução.


A estrutura de Espelhos que se deslocam foi construída sobre essa premissa. O narrador chega ao hostel, encontra os diários de Babandjin e passa a transcrevê-los. Ao final, descobre que a caligrafia dos diários é a sua. Ele havia lido a si mesmo sem saber.

Esse dispositivo não é ornamento narrativo. É a tese do livro encenada como experiência. O leitor que acompanha o narrador percorre o mesmo trajeto: lê uma obra que, em algum ponto, começa a parecer que o conhece. Não porque o livro seja autobiográfico no sentido convencional — mas porque trabalha com aquelas experiências que habitam a zona que raramente verbaliza: a sensação de que certos lugares acumulam versões antigas de nós mesmos, o desconforto inexplicável de alguns corredores, o instante em que um reflexo demora um segundo a mais para parecer nosso.

São experiências que a maioria das pessoas não conta porque, colocadas em palavras, soam absurdas demais. A literatura que as toca não as explica. Apenas lhes devolve forma — e com a forma, a possibilidade de existirem consciente e plenamente.

Isso é o que a leitura ativa, em seu sentido mais profundo, pode fazer. Não apenas conectar o leitor ao legado humano — embora faça isso também. Mas devolver ao leitor partes de si mesmo que o automatismo da vida havia arquivado sem permissão.


Quando escrevo sobre gatos, escrevo sobre percepção. Quando escrevo sobre o hostel, escrevo sobre identidade em trânsito. Quando escrevo sobre Babandjin parado no corredor, fixando um ponto escuro que eu não consigo ver, escrevo sobre o que um leitor sente diante de um texto que parece saber algo que ele ainda não nomeou.

A crítica genética que publiquei neste site detalha o percurso técnico e iniciático que produziu o livro. Mas há algo que ela não diz com essa clareza: os diários de Babandjin existiram como instrumento de observação antes de existirem como ficção. A pesquisa que os originou era uma tentativa de ler o mundo — os gatos, os hóspedes, as dinâmicas do lugar, os padrões que se repetiam com regularidade perturbadora — com uma qualidade de atenção que a vida cotidiana raramente permite.

Essa qualidade de atenção é o que chamo de leitura ativa quando falo de textos. É a mesma coisa. Ler um livro com presença real e observar um gato imóvel num corredor com atenção genuína são atos estruturalmente idênticos: ambos exigem que o observador abra mão da urgência de concluir e permita que o objeto — o texto, o animal, o momento — revele o que tem a revelar no próprio ritmo.

O que o gato estava olhando naquele corredor, nunca soube. Mas o desconforto que senti ao observá-lo permaneceu em mim por anos, até encontrar linguagem nos diários, e depois nos contos, e depois no livro. Esse percurso — do silêncio ao texto, da observação ao reconhecimento — é a história que Espelhos que se deslocam conta. E é também, se bem entendida, a história de qualquer leitura que valha o nome.


Paulo Guerreiro Filho é escritor, autor de Espelhos que se deslocam*, premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. O livro está em pré-lançamento.

Foto de PauloGuerreiroFilho

PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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