O Fio que não Volta: destino, labirinto e o que “Cordas do templo” ensina sobre escrever o inevitável

Há uma imagem no coração de “Cordas do templo” que pertence simultaneamente a três tradições distintas — e que nenhuma delas esgota completamente. Um gato percorre rua após rua numa cidade à noite, seguindo o rastro de um fio de lã que se estende desde a forquilha de uma goiabeira até o berço de uma criança numa casa de telhas coloniais vermelhas. Ele corre contra o tempo e a chuva, marcando com urina os cruzamentos para não se perder, porque sabe que seu cheiro se dissipará antes do amanhecer. Segue o fio. Encontra o que procura. E descobre que não pode mudar o que encontrou.

A imagem é simultaneamente o labirinto de Creta — o fio de Ariadne que guia no escuro —, o conto japonês do fio vermelho do destino que liga dois seres antes do encontro, e a corda do templo maçônico que simboliza a corrente de irmandade que une os iniciados: o comprometimento que, uma vez amarrado, não se desfaz sem custo. O título “Cordas do templo” carrega os três registros ao mesmo tempo, sem precisar nomear nenhum. E essa sobreposição silenciosa de tradições é uma das técnicas mais sofisticadas que a literatura pode empregar — e uma das mais difíceis de dominar sem que o texto desabe sob o peso das referências.


A questão central que organiza o conto pode ser formulada assim: o que acontece quando o que você mais quer e o que está escrito no seu destino são coisas diferentes? Não como dilema filosófico abstrato, mas como experiência vivida, com nome e endereço.

Gimena quer um filho. Não consegue ter. Procura Babandjin porque lhe disseram que ele faz prodígios. Ele a olha e diz o que raramente alguém tem coragem de dizer em voz alta: não vejo nenhuma criança em seu destino. E quando ela replica com o peso do sonho — “mas é o meu sonho” —, Babandjin não recua, não suaviza, não oferece esperança que não tem. Propõe um enigma: por que a estrela da manhã brilha sozinha no céu?

A pergunta não é decorativa. É a resposta disfarçada de questão. A estrela da manhã — Vênus, o planeta que os antigos associavam simultaneamente ao amor e à solidão, ao desejo e à impossibilidade de posse — brilha sozinha porque a claridade do amanhecer apaga tudo ao redor, deixando apenas aquela luz que persiste quando as outras já se foram. É a mais brilhante e a mais solitária. Existe à margem do céu estrelado, num limiar entre a noite e o dia onde nenhuma outra estrela sobrevive.

Gimena não responde. Giovanni muda de assunto e propõe uma festa. A festa é a solução humana para o que não tem solução: barulho, vinho, saltimbancos. E é durante a festa — enquanto todos celebram sem saber exatamente o quê — que Milla desaparece.


Quando escrevi esse conto, a pergunta que me guiou não era sobre destino no sentido fatalista. Era sobre uma distinção que as tradições iniciáticas formulam de maneira mais precisa do que a psicologia contemporânea: a diferença entre o que uma pessoa quer para si e o que ela é, na profundidade mais irredutível de seu ser.

Gimena quer um filho. Mas o que ela quer, no fundo, não é uma criança — é ser o tipo de pessoa que tem filhos. É pertencer a uma categoria que ela entende como completa. Quando Babandjin diz que não vê uma criança em seu destino, não está dizendo que ela é incapaz de amor. Está dizendo que o caminho dela é outro, e que insistir em forçar uma direção que o destino não confirmou é uma forma de desvio de si mesma.

Giovanni entende isso de forma diferente e mais perigosa. Ele rapta Milla — a gatinha — e a traz para casa como se um ser vivo pudesse ser substituído por outro da mesma espécie e resolver a lacuna. É o gesto de quem confunde a forma do desejo com seu conteúdo. Gimena queria maternidade. Giovanni lhe trouxe um animal disfarçado de bebê. Quando ela descobre a verdade, recusa. E Giovanni a abandona numa estrada até onde as árvores já não existiam.

A cena é de uma crueldade que o texto narra sem adjetivos: pelo retrovisor, ele a vê correr atrás do carro até sentar-se no meio da pista. Arrependido, retorna dias depois. Mas ela havia sumido.

Milla desapareceu duas vezes no mesmo conto: uma vez quando foi raptada da festa, e uma segunda vez quando foi abandonada. A segunda é irrecuperável. E é nesse ponto que o conto toca o nervo que “Cama de gato” também tocou, mas por uma via diferente: a perda que decorre não da maldade, mas do amor mal direcionado. Giovanni amava Gimena. O que fez por amor terminou em abandono.


Existe na tradição maçônica um símbolo chamado corrente de união — a corda que passa pelas mãos de todos os iniciados no momento de certos rituais, simbolizando que o que une não pode ser desfeito sem consentimento de todos os envolvidos. O título “Cordas do templo” aponta para essa imagem, mas a subverte de uma forma que só a literatura pode fazer: no conto, o fio que deveria unir é o mesmo que, quando partido, dissolve.

Milla toma o fio de lã das garras de Babandjin e o parte com os dentes. Não por raiva. Pela compreensão, àquela altura já mútua, de que o fio não pode ser refeito nas mesmas condições. A ponta que ficou com Babandjin se dissolve. A que ficou com Milla ele amarra em Gimena — que dorme na cama ao lado do berço, sem saber que o fio que ela queria e não podia ter chegou de uma forma que ela nunca poderia ter pedido.

Essa operação — o fio que conecta a criança desejada à mulher que não podia ter filhos, amarrado pelo ser que perdeu o que amava — é o tipo de movimento narrativo que as tradições iniciáticas chamam de substituição sagrada. Não é conforto. Não é feliz coincidência. É a confirmação de que certas coisas só se cumprem quando o que é querido é cedido — quando o apego se dissolve e o fio pode, por isso mesmo, alcançar onde precisava chegar.

A frase que encerra a história dentro da história — “as substituições só podem ser operadas por quem amamos” — ressoa diretamente com “Cama de gato”. Érica foi envenenada no lugar de Babandjin. Milla foi o elo que conectou o que Gimena precisava ao que Giovanni queria reparar. Em ambos os casos, a substituição não é punição nem acidente — é o mecanismo pelo qual o amor opera quando a forma que ele queria tomar não era possível.


Para um escritor, a pergunta que “Cordas do templo” coloca é tecnicamente exigente: como escrever o inevitável sem que pareça determinismo vazio?

O determinismo narrativo — o enredo que parece seguir para seu destino porque o autor decidiu que seria assim — é uma das formas mais mortais de artificialidade em ficção. O leitor percebe quando o destino de uma personagem é imposto de fora. Quando a narrativa conduz ao inevitável não porque a lógica interna da história assim exige, mas porque o autor precisa que aquilo aconteça para chegar ao ponto que quer fazer.

O que torna “Cordas do templo” diferente é que o inevitável emerge da natureza das próprias personagens, não de uma decisão do narrador. Gimena é quem ela é. Giovanni ama da forma como sabe amar. Milla é o que é. Babandjin vê o que vê. O desfecho não é imposto — é a conclusão natural de quem essas pessoas são quando colocadas em contato umas com as outras. O destino no conto não é uma força externa que move peças. É o nome que se dá, depois do fato, à coerência interna de cada ser.

Isso é o que distingue fatalismo de inevitabilidade narrativa. O fatalismo diz: isso aconteceu porque estava determinado. A inevitabilidade narrativa diz: dado quem essas pessoas são, não poderia ter acontecido de outra forma. A diferença é que no segundo caso o leitor sente a necessidade do desfecho como algo que ele mesmo, se fosse honesto, poderia ter previsto — e não previu porque não queria acreditar.


Há um momento no final do conto que concentra tudo isso numa única imagem. Babandjin pergunta o nome da bebê — a filha que o casal Talqualvocês trouxe ao hostel, aquela que ainda não havia dito as primeiras palavras. Antes que a mãe responda, a criança fala:

— Eu! Eu! Euuuu!

É a mesma frase de Milla. A mesma entonação que se afina ao estado do humor. O mesmo monossilábico que era o único signo necessário para expressar tudo.

O leitor que chegou até ali sabe o que isso significa. Não precisa de explicação. A corrente de irmandade que o título prometeu — as cordas do templo que unem os iniciados através do tempo — se fecha nesse instante com uma precisão que dispensa qualquer comentário do narrador.

O fio partiu. E de alguma forma chegou onde precisava chegar.


Paulo Guerreiro Filho é escritor premiado nos certames “O mal que nos habita” e “Castelo de Kafka”. “Cordas do templo” integra Espelhos que se deslocam*, em pré-lançamento.

Foto de PauloGuerreiroFilho

PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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