
1. A mulher adúltera e os que seguravam pedras
Os fariseus trouxeram a mulher apanhada em adultério e a colocaram no meio da multidão. A lei era clara: deveria ser apedrejada. E vieram a Jesus com a pergunta que era uma armadilha
- o que fazer com ela?
Jesus não respondeu imediatamente. Abaixou-se e começou a escrever no chão. Quando insistiram, levantou-se e disse: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.” E voltou a escrever no chão.
Os que estavam ali foram saindo um a um — os mais velhos primeiro. Até que ficaram apenas Jesus e a mulher. “Ninguém te condenou?” “Ninguém, Senhor.” “Nem eu te condeno. Vai, e não peques mais.”
O que aconteceu nessa cena não foi absolvição da culpa. Não foi a declaração de que o adultério é irrelevante, que todos pecam e portanto nada importa. Foi outra coisa completamente — e mais difícil.
Os que seguravam pedras foram embora não porque compreenderam a mulher. Foram embora porque se viram a si mesmos no espelho que Jesus havia criado ao escrever no chão — provavelmente os pecados de cada um, visíveis apenas para eles. O perdão que produziram ao
soltar as pedras não era perdão genuíno da mulher. Era autoabsolvição. Eu te perdoo porque também preciso ser perdoado. Eu solto a pedra porque reconheço que eu também merecia ser apedrejado.
Jesus não foi embora. Ficou. E o que disse à mulher foi diferente do que os outros haviam feito: reconheceu o que era — não te condeno — e apontou para o futuro — vai, e não peques mais. Não conivência. Não espelho. Encontro real com o ser que estava à sua frente.
Essa distinção é a mais importante que a leitura pode desenvolver — e a mais raramente desenvolvida.
2. A empatia afetiva e o espelho que absolve
A pesquisa sobre leitura e empatia identificou dois tipos que operam de formas fundamentalmente diferentes.
A empatia afetiva é a resposta emocional à experiência do outro — sentir o que o outro sente, ser movido pelo que move o outro. É imediata, instintiva, frequentemente intensa. É o choro pelo personagem, a raiva pela injustiça sofrida pelo protagonista, o medo compartilhado na cena de tensão.
A empatia cognitiva é diferente: é a capacidade de modelar internamente como o outro pensa
— de construir o mapa da perspectiva do outro com suficiente precisão para compreender como o mundo aparece para ele, o que motiva suas escolhas, o que está por trás do que diz e do que faz. A leitura de ficção tem uma relação mais forte com a empatia cognitiva do que com a empatia afetiva. Um hábito vitalício de leitura de ficção foi mais indicativo do exercício de empatia cognitiva no mundo real do que da empatia por personagens fictícios.
Mas há uma terceira coisa que a pesquisa raramente nomeia com a precisão que merece — e que está entre os dois tipos, não fora deles: a conivência disfarçada de empatia.
O leitor que vê no personagem o espelho de suas próprias falhas — que reconhece em Raskolnikov o próprio potencial para a mesma lógica destruidora, que reconhece em Emma Bovary a própria experiência de sustentar uma versão do mundo que o mundo real recusa confirmar — não está necessariamente compreendendo o personagem. Pode estar usando o personagem como instrumento de autoabsolvição antecipada.
Eu te perdoo, personagem, porque eu também precisarei ser perdoado quando eu incidir no mesmo pecado. A pedra é solta não pela compreensão do outro — pelo reconhecimento de si mesmo no outro, e pelo pacto silencioso de conivência que esse reconhecimento produz.
3. Dostoiévski e a alma que não é espelho
Dostoiévski é o escritor que mais sistematicamente construiu personagens que resistem a serem usados como espelho — e que por essa razão desenvolvem no leitor que os habita algo que vai além da empatia afetiva e da conivência: o conhecimento real de como certas almas se formam.
O Grande Inquisidor — o capítulo central de Os Irmãos Karamazov — não é uma posição filosófica bem articulada que o leitor pode concordar ou discordar. É um ser humano completo que chegou àquela posição por um caminho que o texto mapeia com a densidade de quem conhecia a alma humana de dentro.
O Inquisidor ama a humanidade. Genuinamente. É esse amor — mal direcionado, mal compreendido, incapaz de suportar a liberdade que o amor verdadeiro exigiria — que o levou a construir o sistema que priva a humanidade de exatamente o que o amor deveria garantir. A trajetória do amor que se torna controle, da convicção de estar salvando que se torna opressão, do bem intencionado que produz o mal — essa trajetória não é abstrata em Dostoiévski. É a alma específica de um ser específico, mapeada com precisão suficiente para que o leitor a reconheça como real.
O leitor que habitou o Grande Inquisidor não sai com a empatia afetiva de sentir o que o Inquisidor sente — sai com o conhecimento de como um ser humano chega àquela posição sem perceber que chegou. E esse conhecimento é o que torna possível reconhecer a mesma trajetória no mundo real — não no espelho, mas no outro que está à sua frente — antes que o ciclo complete.
Isso não é empatia cognitiva no sentido técnico da pesquisa. É conhecimento da alma humana
— o que a grande literatura sempre foi, antes de a psicologia ter vocabulário para nomear o mecanismo.
4. A diferença entre ver o espelho e ver o outro
Existe uma distinção técnica que determina se a leitura produz conivência ou conhecimento
- e ela está no mecanismo que o texto usa para construir o personagem.
O texto que usa o personagem como pretexto para o leitor — que constrói o personagem de forma que o leitor se projete nele, que valida a experiência do leitor através do personagem,
que produz o reconhecimento confortável de “sou eu” — está criando as condições para a conivência. O leitor que se vê no personagem não precisa ir além de si mesmo para compreendê-lo. O personagem é espelho — e espelhos não revelam o outro.
O texto que constrói o personagem como ser independente — com uma alma que existe além do que o leitor precisa que ela seja, com motivações que não se reduzem ao que o leitor reconhece em si mesmo, com uma trajetória que o leitor precisa habitar para compreender porque não pode simplesmente projetar — esse texto cria as condições para o conhecimento real. O leitor que habita esse personagem precisa ir além de si mesmo. Precisa construir internamente um mapa de uma alma diferente da sua — não para se ver, mas para ver.
Leitores de ficção pontuam mais alto em medidas de empatia e teoria da mente — a capacidade de pensar sobre os pensamentos e sentimentos dos outros — do que não-leitores, mesmo após controlar fatores como idade, gênero, inteligência e personalidade. Mas essa correlação é mais forte para a ficção literária do que para a ficção popular — precisamente porque a ficção literária tende a construir personagens como seres independentes, não como espelhos.
A ficção popular frequentemente produz personagens que são espelhos — construídos para que o leitor se identifique, se projete, se veja. A ficção literária que funciona constrói personagens que são outros — que exigem do leitor o trabalho de habitação que o espelho não exige.
5. O conhecimento da alma que a análise não alcança
Existe algo que a ficção literária acessa que a psicologia, a filosofia e a análise comportamental não conseguem acessar com a mesma profundidade — e que é o substrato do que chamamos de conhecimento da alma humana.
A análise psicológica descreve mecanismos: defesas, projeções, transferências, padrões comportamentais. É precisa, verificável, útil. Mas descreve de fora — como a descrição de um território por quem nunca o percorreu. O mapa que produz é preciso na topografia mas vazio na textura.
A ficção literária que funciona não descreve a alma — a encena. O leitor não recebe informação sobre como certos seres humanos chegam a certos lugares. Habita o percurso. Sente, no nível em que os neurônios-espelho processam a experiência, o que é ser aquele ser específico naquele momento específico daquela trajetória específica.
Tchekhov não produzia análises psicológicas de seus personagens. Produzia cenas que continham a alma inteira do personagem — com toda a sua contradição, toda a sua cegueira específica, todo o espaço entre o que o personagem acredita que está fazendo e o que está fazendo de verdade. O leitor que habita uma cena de Tchekhov sabe coisas sobre aquela alma que nenhuma análise descritiva conseguiria transmitir.
Esse conhecimento — que só se adquire pela habitação, não pela descrição — é o que torna possível o encontro real com o outro na vida real. Não o encontro com o espelho de si mesmo. O encontro com o ser diferente que está à sua frente, com a sua alma específica que seguiu o seu percurso específico até chegar onde chegou.
6. O verdadeiro perdão e o que ele exige
O perdão que Jesus estendeu à mulher adúltera não era possível sem o conhecimento da alma que ele tinha — o conhecimento que permitia ver aquela mulher específica, naquela situação específica, sem precisar do espelho dos fariseus que foi embora com as pedras.
Os fariseus que soltaram as pedras não perdoaram a mulher. Fizeram um pacto de conivência
- implícito, inconsciente, mas real. Eu solto a pedra porque reconheci que também merecia ser apedrejado. O perdão que produziram era autoabsolvição. Não tinha objeto real — não tinha a mulher à sua frente, tinha o reflexo de si mesmos nela.
O verdadeiro perdão — o que Jesus demonstrou — pressupõe ver o outro como o outro é. Não como espelho. Não como símbolo de pecado coletivo. Não como oportunidade de autoabsolvição. Como o ser específico que está à frente, com o seu percurso específico, com a sua alma específica que chegou onde chegou.
E o “vai, e não peques mais” não é conivência — é exatamente o contrário. Reconhece o que foi. Não o absolve retroativamente. E aponta para o que pode ser. É o encontro que respeita o outro suficientemente para não fingir que o que aconteceu não aconteceu.
A ficção que produz esse nível de conhecimento — que faz o leitor ver o outro como o outro é, não como espelho de si mesmo — está fazendo o trabalho que nenhum manual de desenvolvimento pessoal consegue fazer: construindo a capacidade de encontro real. Não conivência. Encontro.
7. Por que a ficção literária desenvolve o que a popular não desenvolve
Cinco experimentos mostraram que ler ficção literária levou a melhor desempenho em testes de teoria da mente afetiva e cognitiva em comparação com ler não-ficção, ficção popular, ou nada.
O resultado surpreendeu os pesquisadores — que esperavam encontrar diferença entre ficção e não-ficção, mas não necessariamente entre ficção literária e ficção popular.
A explicação que os dados sugerem é precisa: a ficção literária caracteristicamente oferece descrições momento a momento dos pensamentos e sentimentos internos de seus protagonistas — proporcionando oportunidades ricas para o leitor experienciar a perspectiva do personagem de dentro, não de fora. A ficção popular tende a ser mais orientada para a ação externa — o que o personagem faz, não o que o personagem é.
E o que o personagem é — a alma que existe por trás das ações — é o que o conhecimento real exige. O leitor que sabe o que o personagem fez tem informação. O leitor que habitou o que o personagem é tem conhecimento.
É a distinção representação/alusão aplicada ao personagem: o texto que representa o personagem descreve suas ações e estados. O texto que alui o personagem cria as condições para que o leitor construa internamente a alma do personagem — usando o que já carrega, preenchendo as lacunas com o que a habitação profunda do texto precipita.
O personagem representado é lembrado. O personagem aludido é conhecido — e o conhecimento persiste como o membro fantasma que o artigo anterior descreveu.
8. A leitura que ensina a ver o outro
Existe uma consequência prática do conhecimento da alma que a ficção literária desenvolve
- e que vai muito além do aprimoramento de habilidades sociais ou da capacidade de “se colocar no lugar do outro”.
O leitor que habitou almas suficientemente distintas da sua — que construiu mapas internos de como seres com trajetórias radicalmente diferentes chegaram onde chegaram — desenvolve uma capacidade que a experiência direta raramente oferece: a capacidade de ver o outro como ele é antes de reagir ao que ele faz.
Não como espelho. Como ser.
Na vida real, as situações raramente oferecem o tempo e a segurança necessários para que esse conhecimento se construa. A reação acontece antes da compreensão. O julgamento
acontece antes do mapa. E o resultado é o ciclo que a cena dos fariseus demonstra: pedras levantadas antes de qualquer encontro real com o ser que está à frente.
A ficção literária é o laboratório onde esse encontro real pode ser praticado com segurança — onde o leitor pode habitar almas que na vida real encontraria apenas no momento da reação, sem tempo para o conhecimento que o encontro genuíno exige. Leitura de ficção pode fomentar conexão social, reduzir estresse, aumentar empatia e até remodelar a atividade cerebral ligada à cognição social.
Mas o mecanismo mais profundo — que a pesquisa descreve em termos de teoria da mente e que a tradição bíblica demonstra em termos de perdão genuíno — é a construção da capacidade de ver o outro como o outro é. Não o espelho. Não o símbolo. O ser.
9. O limite do conhecimento que a ficção oferece
Existe uma honestidade que este artigo precisaria manter: o conhecimento da alma humana que a ficção oferece tem limites — e confundi-los com o conhecimento real que só a vida oferece é um erro que a teoria literária às vezes comete.
A ficção que habitamos é sempre a versão que o escritor construiu — com os limites da visão do escritor, com as escolhas que o escritor fez sobre o que mostrar e o que ocultar, com a compreensão que o escritor tinha no momento em que escreveu. O mapa que construímos ao habitar um personagem é o mapa que o texto tornou possível — não necessariamente o mapa completo da alma que o personagem representava.
E há almas que a ficção disponível não mapeou. Há trajetórias humanas que nenhum texto que você leu habitou com a densidade necessária. E nesses casos, o conhecimento que a ficção desenvolveu não é suficiente — e o risco é usar o mapa parcial como se fosse o mapa completo, projetando no ser à sua frente a versão do personagem que você habitou em vez de continuar construindo o mapa real daquele ser real.
O conhecimento da alma humana que a ficção oferece é instrumento — não substituto. Cria a capacidade de construir o mapa do outro mais rapidamente, mais profundamente, com mais precisão do que o leitor sem esse repertório. Mas o mapa do outro real sempre precisa ser construído pelo encontro com o outro real — a ficção apenas prepara o leitor para esse encontro.
10. Considerações finais: a leitura que ensina a ver
Os fariseus foram embora com as pedras porque se viram no espelho — e a conivência que o espelho produziu foi suficiente para que as pedras fossem soltas. Mas não ficaram. Não houve encontro real.
Jesus ficou. E o que a cena demonstra não é técnica de gestão de conflito nem estratégia de empatia cognitiva. É o que acontece quando alguém vê o outro como o outro é — com o conhecimento da alma humana que permite o encontro real, que não precisa do espelho para perdoar, que pode dizer “vai, e não peques mais” sem conivência e sem condenação.
A ficção literária é o instrumento mais preciso disponível para desenvolver essa capacidade
— não porque produza empatia afetiva, não porque produza conivência disfarçada de compreensão, mas porque obriga o leitor a habitar almas que não são espelhos. Que são outros. Que exigem o trabalho de construção do mapa real de um ser diferente — com a segurança que a ficção oferece e que a vida real raramente concede.
Leitores de ficção pontuam mais alto em medidas de empatia e teoria da mente do que não-leitores, mesmo após controlar fatores como idade, gênero, inteligência e personalidade. O mecanismo que esses números descrevem é o mesmo que a cena da mulher adúltera demonstra: a capacidade de ver o outro como o outro é, não como o espelho que nos absolve de ter que vê-lo.
Essa capacidade não substitui o encontro real. Prepara o leitor para ele — com os mapas que a habitação das almas ficcionais instalou, prontos para serem ativados quando o ser real à sua frente exigir o mesmo conhecimento que a ficção havia treinado.
O leitor que desenvolveu esse conhecimento não perdoa mais facilmente. Perdoa com mais propriedade — porque viu o outro suficientemente para que o perdão seja um ato real, não um gesto de autoabsolvição disfarçado de generosidade.
Referências citadas
GUERREIRO FILHO, Paulo Mendes. Outras teses sobre o conto. Trabalho de conclusão de curso. Curso de Escrita Criativa, PUCRS, 2021.
GUERREIRO FILHO, Paulo Mendes. Espelhos que se deslocam. Inédito, 2026.
MAR, R.A.; OATLEY, K. The function of fiction is the abstraction and simulation of social experience. Perspectives on Psychological Science, v. 3, n. 3, p. 173-192, 2008.
MAR, R.A. et al. Bookworms versus nerds: exposure to fiction versus non-fiction, divergent associations with social ability, and the simulation of fictional social worlds. Journal of Research in Personality, v. 40, n. 5, p. 694-712, 2006.
KIDD, David Comer; CASTANO, Emanuele. Reading literary fiction improves theory of mind. Science, v. 342, n. 6156, p. 377-380, 2013.
Paulo Guerreiro Filho é escritor, advogado e autor de Espelhos que se deslocam, em pré-lançamento. Vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura (ALACS, 2020) e do Concurso Literário Motus #6 (UNIPAMPA, 2022), entre outros. Escreve sobre teoria e prática da escrita criativa em* reescrevendorealidade.com.