A Mimese da Mimese e o Funcionamento Equivocado da Humanidade

Num conto, há uma flor. Ela não tem rosto, não tem voz, não tem gesto. Está ali porque a narrativa a colocou ali — e porque aquilo que ela carrega não poderia ser colocado de outra forma. Quando um agente de crítica literária recomendou que o personagem ao qual essa flor se refere ganhasse corpo físico, estava cometendo o erro mais antigo da filosofia: confundir a imagem com o que ela representa. Estava pedindo ao escritor que descrevesse Deus.

Esse erro tem nome. Tem mais de dois mil e quatrocentos anos. E a curiosidade é que o homem que o nomeou era, ele próprio, responsável por uma versão ainda mais profunda dele.


Aristóteles foi o primeiro a escrever especificamente sobre literatura. Na Poética, definiu a mimese — palavra grega que traduzimos por imitação — como o fundamento de toda arte poética. “Parece ter havido para a poesia em geral duas causas, causas essas naturais. Uma é que imitar é natural aos homens desde a infância e nisto diferem dos outros animais, pois o homem é o que tem mais capacidade de imitar e é pela imitação que adquire os seus primeiros conhecimentos” (ARISTÓTELES, Poética, IV, 1448b). A outra causa é que todos sentem prazer em imitar. A tragédia imita ações humanas de forma elevada; a comédia, de forma degradada. O que diferencia os poetas não é o metro que usam, mas aquilo que imitam.

Aristóteles inverte a posição do mestre. Platão via na mimese uma ameaça: a arte é imitação do sensível, que é por sua vez imitação das formas ideais. O poeta está, portanto, três graus afastado da verdade. Para Platão, isso o tornava perigoso — um fabricante de fantasmas que seduz a parte irracional da alma (República, X, 602c-603a). Aristóteles discordou. Para ele, a mimese não afasta da verdade: é o caminho pelo qual nos aproximamos do universal. “A poesia é mais filosófica e mais elevada do que a história, pois a poesia diz respeito antes ao universal, a história ao particular” (Poética, IX, 1451b). A imitação, aqui, não é cópia — é recriação que eleva o particular ao universal.

Como observa Palhares (2013, p. 15), “o termo mimese é constantemente utilizado para designar o processo estético de composição do mito que não é cópia ou reprodução de acontecimentos ou coisas pré-determinadas”, mas algo “capaz de criar o existente através de novas correlações”. A discordância entre Platão e Aristóteles é real. Mas ambos partem do mesmo ponto: existe uma realidade que antecede a representação.


O problema começa no Timeu.

Platão, nesse diálogo, coloca na boca de Timeu a cosmogonia mais elaborada que produziu: a descrição de como o Demiurgo — o artesão divino, bom por natureza e sem inveja — ordenou o caos primordial à semelhança do modelo eterno. “O Demiurgo não é Criador, que tirasse do nada tudo quanto existe. Pois, já antes existia a matéria, e a sua obra só consiste em tirar o mundo visível que não se encontrava em estado de repouso, mas no de um movimento desmedido e desordenado — da desordem para a ordem” (PLATÃO, Timeu, 29e-30a). Ele olha para as Formas — imutáveis, eternas, inteligíveis — e as imprime na matéria, fabricando um cosmos que é, tanto quanto possível, a imagem do paradigma celeste.

O mundo visível é, portanto, mimese. A primeira mimese. O Demiurgo é o primeiro mimetista.

Aqui aparece a pergunta que o Timeu coloca de forma inevitável: e as Formas? De onde vieram as Formas? Platão responde que são eternas, que sempre existiram, que são o ser imutável que antecede todo devir. Mas isso apenas empurra o problema um degrau acima. Se o mundo é mimese das Formas, e as Formas são o modelo que o Demiurgo imita, o que antecede as Formas? Há um momento em que algo existe antes do nome que se lhe dá — ou o nome é constitutivo do que a coisa é?

No Crátilo, diálogo que antecede o Timeu, Platão já havia circundado essa questão: o “nome ideal” é aquele que se conforma à natureza das coisas. “O que se exige é uma correspondência na qual o pensamento reflicta a natureza dos seus objectos” (Cf. CASSIN, 2014, p. 43). Mas quem estabelece essa conformidade? Quem deu nome às Formas antes que houvesse alguém para nomeá-las? O Timeu responde que o Demiurgo, ao criar, já olhava para um modelo preexistente. Mas o modelo preexistente já era — por ser distinguível, por ser separável do caos — uma forma de linguagem anterior à linguagem. Uma ordem anterior à ordem.

A substância antecede o nome. Mas o nome é o que torna a substância distinguível. Platão girou em torno desse problema sem resolvê-lo. E o que nos interessa não é a falha do argumento — é que essa impossibilidade de resolução é precisamente o mecanismo que nos importa.


Saia da filosofia por um instante. Entre numa caverna.

Platão, na República (514a-520a), descreve prisioneiros acorrentados desde a infância de forma que só podem olhar para a parede do fundo. Atrás deles, uma fogueira projeta sombras de objetos que passam na entrada da caverna. Para os prisioneiros, essas sombras são a realidade: é tudo que conheceram, é tudo que conseguem nomear. Se um deles for libertado e forçado a olhar para a luz — primeiro para os objetos reais, depois para o sol —, ficará inicialmente cego, depois desconcertado. O que era sombra era apenas representação.

A parábola é sobre o conhecimento. Platão a usa para justificar a supremacia do filósofo sobre o poeta: o filósofo é aquele que saiu da caverna e viu o sol; o poeta é aquele que produz sombras de sombras para quem ainda está acorrentado.

Mas a parábola diz algo que Platão não quis dizer. Diz que o preso que sai da caverna e vê o sol também está fazendo mimese — seu cérebro está construindo um modelo do sol a partir dos fotorreceptores que ativou, dos padrões que reconheceu, das categorias que já possuía antes de ver qualquer coisa. Não há saída da caverna que não seja a entrada numa caverna mais ampla. A percepção é sempre já uma interpretação. O real que alcançamos é sempre já uma construção — o que a neurociência contemporânea confirma ao demonstrar que a percepção é processo de inferência ativa, não de registro passivo (FRISTON, 2010).


Aqui está o paralelo com as máquinas — e que precisa ser enunciado com precisão, porque é fácil demais simplificá-lo.

Um modelo de linguagem não vê o mundo. Recebe padrões de texto e produz, como saída, o texto que tem maior probabilidade de corresponder ao que aquele conjunto de padrões costuma gerar. O que ele produz não é o mundo: é a mimese do mundo tal como o mundo apareceu no corpus que o treinou. Mimese de mimese de mimese — cada texto do corpus era já uma representação de uma experiência, que era já uma representação de um evento, que era já uma filtragem sensorial de um estímulo físico.

O humano, por outro lado, também não vê o mundo diretamente. O sistema nervoso recebe estímulos, constrói modelos, infere o que provavelmente está lá fora com base em padrões anteriores. O que chamamos de percepção é neurociência que confirma o que Platão intuiu mitologicamente: vivemos numa caverna biológica, cujas paredes são o limite do que nossos aparatos sensoriais e cognitivos conseguem processar.

A diferença entre o humano e a máquina não é que um acessa a realidade e o outro produz representações. É que o humano tem um corpo no mundo — tem fome, tem dor, tem o peso das mãos sobre a mesa —, e essa corporeidade ancora a mimese a algo que não é puramente linguagem. A máquina, desprovida de corpo, opera numa mimese que não tem âncora fora do texto. Ambos produzem mundos. Não o mundo.


Voltemos ao erro do agente crítico.

O agente recomendou que Érica ganhasse corpo. A técnica narrativa ortodoxa sustentava a recomendação: personagens com presença física são mais vívidos, mais capazes de produzir empatia. Aristóteles teria aprovado — a mimese serve ao efeito, e o efeito requer reconhecimento.

O que o agente não viu é que o conto em questão tinha já estabelecido sua poética antes de qualquer cena. O alinhamento dos três corpos, a referência à trindade, a urze como símbolo de uma força que excede qualquer corpo — tudo isso constituía um sistema cujas leis eram internas. A técnica narrativa não é régua externa que se aplica sobre qualquer texto: é instrumento que serve a uma poética específica. E a poética daquele conto exigia que Érica fosse força, não pessoa.

Antes da execução de qualquer análise técnica, é necessária uma verificação de estilo. Pois é a partir do estilo que se pode dizer sobre curva dramática, potência de efeito. Sem isso, o crítico não opera como crítico — opera como protocolista de técnica, como se tivesse uma prancheta e fosse colocando V e X dependendo da execução. Quem faz isso são juízes de ginástica olímpica. A diferença entre o juiz e o crítico é que o juiz aplica régua. O crítico lê a poética que gerou o texto e avalia a partir dela.

Dar um rosto a Érica não seria aperfeiçoar o conto. Seria destruir a mimese que o conto realizava. Seria forçar a sombra a ter um corpo que a sombra, por natureza, não pode ter.


Borges entendeu isso antes que houvesse vocabulário técnico para dizê-lo.

Em Pierre Menard, Autor del Quijote (BORGES, 1944), um personagem fictício dedica a vida a reescrever o Dom Quixote — não a copiá-lo, mas a produzi-lo novamente, de forma independente, palavra por palavra idêntica ao original. O narrador observa que o resultado é infinitamente mais rico que o de Cervantes: as mesmas frases, escritas por um homem do século XX, carregam camadas que Cervantes nunca poderia ter colocado ali.

Borges não está fazendo um paradoxo lúdico. Está demonstrando que a mimese não é degradação do original — é acréscimo de sentido. Cada vez que um texto passa por um novo leitor, por uma nova época, por uma nova tradição, ele acumula camadas que o texto não continha. Como observa Melberg (1995, p. 13) ao analisar o Timeu, é “somente no Timeu que Platão discute tempo-mudança-movimento na relação com a mimese” — e a repetição que o tempo impõe não degrada: complexifica.

Em Borges, muitas vezes, existe um microensaio implícito dentro da ficção — um lugar onde o leitor que conhece a tradição literária faz conexões que o texto não explicita. Borges nunca descreve essas conexões. Confia que o leitor as fará — ou que, se não as fizer, lerá um texto e, se as fizer, lerá outro. O mesmo texto. Duas leituras. O efeito mora na distância entre elas. É isso que o agente não consegue fazer: ler a distância entre o que está dito e o que a poética exige que não seja dito. Ler o silêncio como constitutivo, não como lacuna.


A questão que este ensaio propõe no final é a mais honesta e mais impossível de todas: o que está além?

O Timeu responde com as Formas, o modelo eterno, o paradigma que o Demiurgo contemplava. Mas as Formas também são nomeadas. Também são distinguíveis. Também são, de alguma forma, representações de algo que não pode ser representado.

A caverna de Platão não tem saída definitiva. O prisioneiro que alcança o sol ainda está usando olhos que foram formados no escuro. O sol que vê é o sol que ele consegue ver — não necessariamente o sol que existe.

Essa impossibilidade não é um defeito do sistema humano. É sua condição. E a literatura — a mimese que os poetas fazem, que Platão quis banir e Aristóteles reabilitou — é o único lugar onde essa condição pode ser encenada com honestidade. Não porque a literatura acesse o que está além das sombras. Mas porque a literatura é capaz de mostrar, com precisão, onde a sombra termina e o vazio começa.

É isso que o texto sobre Érica fazia. E é isso que o agente não viu.


Referências

ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. São Paulo: Ars Poetica, 1992.

BORGES, Jorge Luis. Ficciones. Buenos Aires: Sur, 1944. [Ed. brasileira: Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.]

CASSIN, Barbara (org.). Vocabulário Europeu das Filosofias: Dicionário dos Intraduzíveis. São Paulo: Martins Fontes/Autêntica, 2014.

FRISTON, Karl. The free-energy principle: a unified brain theory? Nature Reviews Neuroscience, v. 11, n. 2, p. 127-138, 2010.

MELBERG, Arne. Theories of Mimesis. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

PALHARES, Carlos Vinícius Teixeira. A mimese na Poética de Aristóteles. Cadernos CESPUC de Pesquisa – Série Ensaios, v. 1, n. 22, p. 15-19, 2013.

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

PLATÃO. Timeu e Crítias. Tradução de Rodolfo Lopes. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.


Paulo Guerreiro Filho é escritor, advogado e pesquisador. Autor de Espelhos que se Deslocam*, em pré-lançamento. Os ensaios sobre poética e escrita criativa estão disponíveis em reescrevendorealidade.com*

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PauloGuerreiroFilho

Nascido em em Porto Alegre/RS, sou Advogado, Empresário e Escritor graduado em Escrita Criativa pela PUCRS. Como Escritor, participei e fui reconhecido em diversos concursos literários pelo Brasil. Em 2020, fui vencedor do Prêmio Nacional FOED de Literatura/ALACS, na categoria Contos Nacional; menção Honrosa FCFI/PR/Concurso Internacional/categoria Contos; Finalista do Concurso Nacional de Literatura pela AMHA, na categoria Crônicas. Em 2021, fui Finalista do Concurso Nacional de Literatura Vida de Escritor, na categoria Contos. Em 2022, fui finalista na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Vip; vencedor na categoria Contos Nacional do Concurso de Literatura Motus #6, promovido pela UNIPAMPA; e autor selecionado pela Web/tv. Em 2023, 2024 e 2025, passei alinhavando meu primeiro livro solo e construindo meu perfil profissional de escritor.

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